• Júnior Vieira

Rap político e suas vozes ocultas

Com o crescimento do gênero nas plataformas musicais, ainda existem obstáculos para a representação de minorias na indústria



O Brasil marcou sua presença na edição deste ano do BET Awards, premiação norte-americana, após MC Dricka e Emicida serem indicados nas categorias de “Melhor novo artista internacional” e “Melhor artista internacional”, respectivamente. Tais indicações comprovam a ascensão do rap na indústria fonográfica do país, que se estabilizou como 6º estilo mais ouvido na plataforma nacional do Spotify.


Originado na Jamaica e popularizado nas periferias estadunidenses, o gênero surgiu como um veículo de expressão para a comunidade negra e se expandiu durante os anos 1980. Aqui no Brasil, o movimento ganhou força na década seguinte quando dançarinos e MCs começaram a se encontrar em praças e estações de metrô de São Paulo. Com o emergir de artistas como Thaíde e Ndee Naldinho, músicas que denunciavam a intolerância patrocinada pelo sistema começaram a ser adotadas pelo público. Posteriormente, o rap inspirou a criação de outros estilos, como o trap, subgênero que vem dominando as paradas musicais nos últimos anos.

A inclusão não atinge a todos

Ainda que se trate de um ritmo derivado das camadas não elitizadas da sociedade, a sua popularização abriu um caminho para a criação de letras que se habituassem ao mainstream. Dominado por homens, músicas sobre sexo e ostentação passaram a ser criadas sob uma ótica machista normalizada pela indústria. Tal fato fez com que a discussão de outras minorias fossem silenciadas.


Atualmente, mesmo com a proporção de uma maior diversidade, o espaço é limitado para aqueles que tentam uma carreira dentro do ritmo. Guigo é um artista musical brasileiro que participa do Quebrada Queer, o primeiro grupo cypher LGBTQIA+ de rap da América Latina: “acho que basicamente a gente se juntou por uma necessidade, que era ser ouvido.”


Para ele, seu encontro com o gênero aconteceu de repente, uma vez que esse não proporciona um estímulo para pessoas da comunidade. “Não existia a tal visibilidade necessária para que a gente se reconhecesse”, afirma. “Definitivamente contribuímos muito mais para o rap do que ele tem contribuído para nós, artistas LGBTQIA+.”



[Imagem: Guigo/Arquivo Pessoal]


“Minha arte é apenas o relato da minha época”, declara Guigo.

Quando se trata sobre o espaço dominado pelas mulheres, a problemática também é encontrada. Fundada em 1995, a categoria de melhor álbum de rap no Grammy Awards só foi ganha por uma rapper solo em 2019, com a vitória de Cardi B. Uma esperada e tardia conquista que chegou após incansáveis denúncias que apontavam o racismo e o machismo da premiação.


“Nunca se esqueça que o Grammy não me deu o troféu de Artista Revelação quando eu tinha sete músicas simultaneamente nas paradas da Billboard e a maior semana de lançamento que qualquer outra mulher rapper na última década, o que inspirou uma geração”, disse Nicki Minaj em uma publicação de 2020 no Twitter. “Eles deram o prêmio para o homem branco Bon Iver”. Essa categoria só possui duas rappers vitoriosas: Lauryn Hill, em 1999, e Megan Thee Stallion, em 2021.


Novos horizontes

No solo nacional, Guigo ganha destaque por trazer suas experiências em seu trabalho. Seu último projeto, intitulado “Lúcifer: O Evangelho Segundo Meus Demônios”, aborda sua versão sobre fatos que viveu: “fui vilanizado por conta de rumores que não necessariamente faziam jus à realidade das coisas.”


Dentro deste período pandêmico, no qual a crise sociopolítica se mostra presente de forma árdua, Guigo contribui para a representação do movimento negro e LGBTQIA+ por meio da arte da resistência, e, junto a outros artistas, pinta a nova face do rap. “Nossas vidas têm a cada dia ganhado mais espaço em nossa arte”, diz confiante. “Continuar colocando a minha cara a tapa no momento político que estamos é um símbolo de expressão da opinião, é semiótica pura.”


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