• Gabriele da Luz Mello, Nathalie Rodrigues e Laisa Dias

Cinema e teatro na laje da comunidade

Atualizado: 24 de jul.

Luta por um direito: o projeto Cia Teatro de Laje garante aulas de teatro e produz filmes na periferia.


Por Gabriele da Luz Mello, Nathalie Rodrigues e Laisa Dias


[Imagem: Reprodução/Instagram Cia Teatro de Laje]


Diante das dificuldades encontradas para democratizar o acesso ao cinema para a população da periferia, outros projetos foram surgindo para defender os direitos culturais dessas pessoas. É o caso do Cia Teatro de Laje, projeto criado em 2016 que ensina dramaturgia para jovens da periferia de Brasilândia, em São Paulo. Além da produção de teatro, a iniciativa também conta com o Cine Laje, momento em que exibem para a população os trabalhos realizados pelos jovens. Tatiane Góis, idealizadora do projeto e atriz, conta que começou ensinando quatro jovens e após uma semana já tinha 22 alunos, dando aulas em sua própria casa: "O espaço da sala da minha casa ficou pequeno, então comecei a dar aula na minha laje, aí veio o Cine Teatro de Laje".


[Imagem: Reprodução/Instagram Cia Teatro de Laje]


"Eles [jovens que participavam do projeto] não queriam só produzir, eles queriam ver e fazer as outras pessoas verem o que eles tinham produzido", relata Tatiane, que contou com a ajuda de amigos para começar as exibições das produções das crianças. Como resultado a iniciativa, além de ensinar atuação a seus alunos, também os forma em várias partes do processo cinematográfico.


Uma das dificuldades encontradas pelo projeto foi a perda de alunos, uma vez que em determinado ponto, os jovens passam a trabalhar para ajudar na renda familiar. Vivendo essa adversidade, Tatiane começou a levar os jovens para trabalhar profissionalmente com a cinematografia, mostrando às famílias que o meio artístico também pode gerar rendimentos. Além disso, o projeto ajuda de outras formas as famílias dos jovens, como o auxílio às crianças que não sabem ler, distribuição de cestas básicas e livros, funcionando como um verdadeiro apoio para toda a comunidade: "aqui as vivências são muitas".


Durante a pandemia, as crianças se envolveram com curta metragens: "Por conta da pandemia [de COVID-19] eu acabei dando aulas remotas. Consegui pela Fábrica de Cultura dar aula de cinema, de produção. Foram curtas maravilhosos que eles fizeram sozinhos em casa, com o equipamento deles!", relata Tati e ainda acrescenta: "pela primeira vez na minha vida eu recebi para ensinar o que eu sei". Mesmo com todos os ganhos do projeto, a idealizadora conta que passa por dificuldades quanto ao espaço e ao sustento do projeto: "a pandemia acabou com a gente".


Os apoios para o projeto vêm de esforços de Tatiane e da própria comunidade, mas também já receberam ajuda externa, como a participação do cantor Vitão: "ele pagou as caçambas para tirarmos o entulho". Ela conta sobre a dificuldade que tiveram quando a laje desabou e passaram um ano arrecadando doações para retirar todo o entulho do local. A professora ainda ressalta que há um receio em aceitar a ajuda de celebridades por causa do uso da imagem das crianças e do projeto. A captação dos recursos e divulgação são feitas por meio da própria comunidade e tem o objetivo praticamente único em ajudar e transformar a vida desses jovens por meio da cultura.


Após a pandemia, muitas crianças desistiram do projeto por causa das dificuldades financeiras e sociais: "eu não consigo mais manter a alimentação deles porque eu não recebo mais a doação de comida. Eu não consigo mais ajudar ninguém". A luta de Tatiane para manter o projeto para os jovens também envolve outros princípios. Ela precisa lidar com o controle das desistências dos alunos, com as crianças que não têm documentação e até mesmo com o acompanhamento médico dos atores mirins, que precisam estar com os exames em dia para conseguirem atuar. "O que eu queria de verdade era não ter que brigar tanto para ter o mínimo. Meu maior sonho é ter um espaço, uma sala de cinema e um teatro definitivamente dentro da periferia onde essas crianças possam apresentar seu trabalho. Eu quero ter um espaço permanente", acrescenta Tatiane.


A atriz e professora ressalta que muitas vezes também há falta de interesse da e conhecimento da comunidade: "Eles [jovens] tendo esse olhar crítico sobre si e sobre a comunidade, passam a entender que eles são peças fundamentais da transformação da comunidade".


Além das produções da própria comunidade que estão disponíveis no canal do Youtube Borderline Filmes (a produtora que surgiu do Cia Teatro de Laje), Tatiane também expõe em seu espaço filmes, séries e documentários que estão em alta no momento, produções que as crianças ouvem falar e ainda não tiveram a oportunidade de assistir. As exibições ocorrem gratuitamente aos domingos às 18 e 19 horas, mas as pessoas ainda passam pelo risco de cancelamento caso chova ou faça muito frio, uma vez que a exibição não é mais coberta por laje.


O Projeto ocorre na Rua Alfredo Lúcio,n° 518, no bairro Vila Teresinha, na Brasilândia, em São Paulo. Mais informações podem ser facilmente encontradas nas redes sociais do Cia Teatro de Laje.


Veja mais em:

Cineclubes e SPCine: uma democratização do cinema

Cinema e cultura: uma maneira de transformar as periferias

78 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo