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Rap e Hip Hop, a voz da quebrada

Atualizado: 13 de jun. de 2023

Relatos sobre as barreiras impostas a arte de periferia


Por Diogo Silva


O rap e a cultura hip hop são uma forma de arte que vem da periferia como um meio de expressão dos excluídos, mas hoje o movimento cresceu e tomou os holofotes, telas de TV e celulares. No entanto, mesmo com a ascensão do movimento, as formas de expressão das quebradas ainda sofrem muito preconceito e têm muitas dificuldades, principalmente na base da pirâmide. O MC Pauê Ovelha Negra, organizador da batalha de rima “Batalha do Verde” e rimador dos vagões do metrô, e os organizadores da Batalha da USP relataram suas experiências e vivências dentro dessa luta.


Central Periférica: Sabemos que muitas vezes a cultura nas quebradas é muito desvalorizada vista com maus olhos. Você acha que falta um incentivo ou uma falta de esforço (do governo ou de quem seja) para que tenha cada vez mais cultura nas periferias?


MC Pauê: Falta sim, mas não só para a cultura, para a quebrada no geral. Eu faço uma batalha de rima que é a batalha do verde e nós temos o apoio do time da região, o Área do Verde, mas é o máximo que conseguimos de ajuda e isso é o fomento da quebrada para a quebrada. Nesta batalha é tudo autogestão, eu pego a minha caixa que eu rimo no metrô e levo lá, e nós conseguimos esses baratos tudo na fala, uma galera vai assistir e dá um fomento nos comércios em geral, o bar vende os seus drinks, do lado tem um mercado que a galera vai comprar um barato pra comer, do outro lado tem uma adega.


Isso faz um fomento tanto cultural, tem gente que vai lá e rima, tem um moleque que vai na psicóloga e ela falou que as rimas estão ajudando ele, quanto financeiro que gira o comércio ali. E é praticamente eu sozinho, eu tenho uma amiga que faz o flyer, eu filmo, eu apresento, eu posto, eu vou atrás do corre dos patrocínios e tal. Se a gente tivesse a ajuda do Estado ou de uma empresa, a aparelhagem de som seria melhor, não iria arriscar meu instrumento de trabalho, poderia ter um ajuda de transporte para os MC’s que vem de longe poder estar chegando, uma premiação em dinheiro e tal.


Hoje a gente não consegue nem ter um acesso para conversar, porque a subprefeitura é aquela coisa, você precisa passar por um monte de etapas, o pessoal dificulta a conversa, não tem disposição e tem até uma má intenção de estar ouvindo. Eles abrem mais para quem eles querem, para artistas que já são mais conhecidos e usam de "desculpinha" para falar que estão fazendo alguma coisa.


Batalha da USP: Querendo ou não a cultura está aí na quebrada, qualquer uma que você encostar você vai ver movimentos culturais, várias rodas, vários saraus, vai ter uma coisa assim perto da sua goma. A gente entrou na USP, é um espaço que foi negligenciado para nós e que agora a gente está tendo acesso e estamos vendo o quão importante é. A gente morava na quebrada do lado da USP Leste, no Jardim Keralux, e a gente inventou de fazer a batalha com o nome batalha da USP por conta da estação USP - Leste, até que chegou o convite da UJS (União da Juventude Socialista) para a gente fazer a intervenção lá e ocupar esse espaço que foi negado para nós. Nós crescemos desde pequeno na quebradinha ali do lado e a gente nem sabia que a gente podia ter acesso a esse tipo de espaço e agora a gente está se familiarizando com o local até para a gente apresentar para o pessoal que é da quebrada, falar que eles são bem vindos.


Tem alguns problemas que a gente pode falar dos incentivos governamentais, existem leis que dão esse acesso, mas elas são complicadas e são escritas para que nós não possamos acessar, são editais extremamente difíceis, porque a gente não consegue acessar nem uma educação básica de qualidade, imagina uma educação emancipadora que permita que a gente tenha a consciência que a gente pode acessar esses aparelhos do estado.


CP: Sabemos que, principalmente em São Paulo, a população periférica está sendo jogada cada vez mais para longe do centro, e consequentemente mais longe de tudo (cultura, lazer e etc). Você acha que as batalhas de rima e os rimadores dos vagões podem ser a representação da periferia ocupando esses espaços que são negados? Do tipo se Maomé não vai montanha, a montanha vai até Maomé?


MC Pauê: Não só no centro, mas as batalhas que são perto de qualquer estação, ou perto de uma quebrada pra destravar os artistas de lá. Até neste ponto de ir na prefeitura toda a semana encher o saco porque essa é a única maneira que nós temos. Nós temos que tomar nosso espaço, porque vemos pessoas que não são da periferia tomando os espaços da periferia, uma apropriação, não necessariamente maldosa porque cada um faz sua arte do seu jeito.


Isso é motivo de orgulho. Sempre que a gente vê a periferia se movimentando, se tivesse uma manifestação na Av. Paulista só de pessoas periféricas ia lotar bem mais do que mostra na TV, mas não tem como, eu trabalho no metrô e o meu público é o povão, e vejo eles indo e voltando do trabalho só pensando em chegar, arrumar a casa e continuar o outro dia. As pessoas não tem tempo nem de se manifestar, então o único caminho é a gente correr atrás, do lazer e a cultura que tá longe. Não só para cultura, mas todas as áreas, ter uma praça um wifi grátis porque a gente vê wifi grátis no Trianon, no centro, no teatro, na Roosevelt e aqui na quebrada male male tem praça; então é essa dificuldade que eles colocam pra gente na favela. Muitas linhas de internet não chegam, muitas pessoas não têm acesso a internet em casa pela condição.


Batalha da USP: Eu acho que tem vários fatores, tem o fator do MC, tem o fator do cara que é periférico que gosta de ver a batalha e não rima, é pros MC’s, porque leva um conhecimento acima, você aprende coisas novas, você conhece diferentes pessoas. O cara que não quer ser MC, mas ele curte ver uma batalha, ele entra dentro do campus e se interessa pela parada. As vezes é uma coisa que a gente faz que indiretamente vai mudar a vida do cara. É bom que seja um equilíbrio, mas ter um envolvimento, um acesso para o pessoal que é periférico estar lá dentro, se tiver um acesso a uma biblioteca já é legal, claro que não tem que ter acesso a tudo porque a pessoa não estuda lá, por exemplo, uma quebrada do lado, tinha acesso da USP para onde a gente morava e a gente não sabia que a gente podia entrar lá de maneira alguma, e desta forma a gente consegue trazer mais conhecimento para o pessoal que é da nossa quebradinha.


Para mim parece muito um apartheid silencioso, essa coisa da localização, então ter um campus da USP ali na zona Leste, do lado do Jardim Keralux que agora a gente está conseguindo acessar, isso sim que é revolucionário.


CP: Nos últimos anos o rap e a cultura hip hop, que anos atrás era taxada preconceituosamente como música ruim ou coisa de bandido, vem se popularizando cada vez mais e atingindo outras camadas sociais, como você vê esse fenômeno? Um sinal de crescimento do movimento ou uma apropriação da cultura por pessoas que tanto bateram?


MC Pauê - Eu acho que o rap tem que crescer porque isso realiza sonhos de todo mundo que tá no rap. Comprar casa para mãe, movimenta dinheiro e vira um trabalho e assim a gente realiza sonhos que a gente não realizaria trabalhando. Se eu trabalhasse com outra coisa, eu não compraria uma casa com a minha condição de estudo.


Quanto aos apropriadores que vão sugar disso, eles sempre vão existir e não vai ter como barrar, e querendo ou não eles que dão acesso a tudo isso. Os apropriadores faziam isso com o rap, mas antigamente fizeram isso com a música emo, então às vezes eu brinco na rima, a galera cortou a franja e pôs o boné. Eles só vão passando a tocha agora eles estão no rap, mas o mesmo bolinho uma hora vai pra outra e eles vão estar pelo dinheiro. Então nós temos que fazer por nós, os artistas não podem se render a se esquecer da sua arte, eu ouvi Racionais, Sabotage, RZO e os caras me educaram muito, foi um pai o hip hop pra mim, eu ouvi muitas coisas que me fizeram pensar e agir diferente.


Batalha da USP: Onde existe uma cultura vai existir algum tipo de apropriação, isso é algo normal, já é esperado. A cultura hip hop nasceu no Bronx [bairro periférico de Nova York] e já nasceu em um lugar muito marginalizado, foi formado por gangue criminosa, mas hoje ela está tomando outra proporção. Por exemplo, hoje a gente está na faculdade, mas mesmo estando aqui, a gente continua sendo marginalizado pela raiz do que o bagulho é, tudo que a gente faz soa de uma forma ruim, e é importante estar nesse lugares, para mostrar que a gente está lá fazendo parte de um crescimento para a sociedade. A cultura já salvou a vida de várias pessoas todo dia, às vezes o moleque que está na batalha ali rimando, se ele não estivesse lá, iria estar na boca de fumo segurando uma bolsa e até roubando no farol, então o bagulho é abrir novas perspectivas para as pessoas que fazem parte.


E querendo ou não, as vezes é um boyzão que ia se matar, que tem problema em casa com os pais e é acolhido pelo movimento, então acho que tem uma linha muito tenue entre a pessoa usar do movimento para aprender mais sobre a historia preta e como é a cultura de quebrada, ou usar disso pra se engrandecer entre os deles, os brancos. Porque querendo ou não, a maioria do nosso público na USP é uns boyzão e de ruim não vai ter nada dele ouvir a palavra de um mano periférico passando a visão dele, falando da experiência dele .


CP: Como é viver de arte em São Paulo?


MC Pauê: Eu amo viver de arte em São Paulo, é uma coisa mágica. Desde a primeira vez que eu fui rimar no vagão eu vi um palco, e no outro dia eu vi outro palco e até hoje eu vejo um palco, e as pessoas que frequentam esse palco são as pessoas que eu sempre quis cantar que é o povão, um público que não vai no Lollapalooza me assistir se eu estourar, não vai ter acesso, mesmo se eu cantar na quebrada em um evento aberto e de graça porque a galera está ocupada, a cabeça está em outra, é um tiozinho ou uma tiazinha, é algum jovem de faculdade que está estudando, é um público muito mesclado, mas é o povo.


A arte de rua em São Paulo é uma coisa linda de se ver, a maioria recebe bem minha arte, eu vi gente sorrir, gente que dá uma moedinha e fala que você fez ela sorrir, então você vê que tocou o coração. O Estado dá fundos para fomentar a cultura como teatro, mas dificilmente para o rap e quando vem, chama muitos artistas já conhecidos que nem precisam. No mês do rap que eu cantei, não tem uma ajuda para passagem, eles só dão o cachê depois de 30 dias, então você se vira pra ir nos bagulho, não tinha um lanche ou umas paradas que é o mínimo. Mas se vê que em outros estados é pior, viver de arte em São Paulo é o melhor que está tendo.


Batalha da USP: Tem momentos que é bom e tem momentos que é ruim, a gente que quer viver dessa parada e não temos tanto recurso para isso, acaba que a gente tem que dar uma parada no que a gente está fazendo para poder trabalhar porque a gente não tem condições de se manter.


Fazer arte em São Paulo é difícil, dá pra você viver disso, dá pra você fazer dinheiro com isso, mas dificilmente vai ser um dinheiro que vai mudar sua vida de início. É um investimento a longo prazo, e você tem que ir com a cabeça focada nisso e o tempo inteiro se esquivando para você poder se manter na sua vida pessoal também. O cara que está em prol disso, vivendo da arte, por obrigação ele tem que ter mais de um emprego, não tem tempo para nada, as vezes vai virado para os lugares, tudo isso em prol do que ele acredita, do que ele quer realizar, do sonho dele.


A arte é muito injusta, muito ruim, a arte vai te sugar tudo pra você viver daquilo e te fazer daquilo. A gente está em São Paulo, é um grande polo, a gente tem meio que um privilégio por conta disso, a gente já larga um passo à frente.


A cidade é cinza, e com a arte a gente tenta colocar um pouco da nossa cara lá, não é nem botar uma aquarela, é botar um vermelho, um bagulho assim que vai chocar, nossa função como artista é chocar, mudar o padrão da sociedade. As pessoas são cinzas, às vezes elas não retribuem o bagulho da mesma forma que você entrega.


As pessoas aqui são muito cinzas, às vezes não conseguem retribuir um bom dia ou um gesto de gentileza, mas ao mesmo tempo quando a gente anda pelas ruas de São Paulo, por mais que a gente veja que é uma cidade extremamente problemática, extremamente desigual, que arrota na sua cara o que o capitalismo da sua vertente mais cruel que é na desigualdade de ter prédios e pessoas engravatadas e na mesma avenida andando, dividindo a mesma calçada, com pessoas que são obrigadas a viver em situação de extrema pobreza e de rua, e mesmo com tudo isso São Paulo consegue entregar emoção na arte que ela produz, a arte é uma das poucas coisas que salva em São Paulo.


CP: Quando acontecem as batalhas?


MC Pauê: A batalha do Verde acontece toda quarta feira às 19h, Jardim Maristela, Zona Sul de São Paulo, no Fundão do Ipiranga.


Batalha da USP: A batalha acontece terça-feira quinzenalmente no campus da USP Leste, para quem vai de metrô é só pegar a linha 12 Saphira sentido Calmon Viana, tem todas as instruções no Instagram.


Ouça o podcast do Central Periférica com conversas com MC Pauê Ovelha Negra e os organizadores da "Batalha da USP".

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