• Jaqueline Silva

Escolas de samba na pandemia

Atualizado: 27 de Nov de 2020

O trabalho social de escolas de samba interrompido pela pandemia



O carnaval no Brasil atrai milhares de foliões, blocos, ruas e sambódromos no eixo Rio-São Paulo, e se torna uma opção muito rentável para o turismo de cidades que o promovem


Por Jaqueline Silva


Ala das Baianas no Desfile das Escolas de Samba de SP, 2018 [Imagem: Reprodução/Folhapress]

Na edição de 2020, a cidade de São Paulo bateu o recorde de foliões e de número de blocos de rua, com aproximadamente 15 milhões de pessoas festejando por 600 blocos. A receita da cidade foi de R$2,3 bilhões contra os R$36,6 milhões que investiu.


Bloco de rua no Carnaval de São Paulo. [Imagem: Reprodução/Expo News Brasil]

Entretanto, a epidemia do coronavírus obrigou o governador de S. Paulo, João Dória (PSDB- SP) adiar a celebração do Carnaval em todo o Estado para meados de julho de 2021. Esta medida foi apoiada por escolas de samba e organizadores de blocos de rua que já clamavam por medidas de proteção.


Na contramão, a suspensão de atividades promovidas pelas escolas de samba origina impactos negativos no lazer de muitos membros das comunidades ao redor, que contam com projetos sociais para interagir e aproveitar o tempo com qualidade.


A professora Gislene Borges é moradora da Zona Leste da capital, que possui várias escolas de sambas tradicionais de São Paulo. Participante há sete anos de desfiles de escolas da região, Borges conta que a pandemia afastou-a dos ensaios e que afetou a vida de inúmeros idosos e crianças que participavam dos projetos sociais que as escolas promoviam, como oficinas de dança, confecção de fantasia, ensaios de bateria, o simples prazer da distração acompanhada a atividades e da maior mobilidade física, no caso de pessoas com mais idade.

Além disso, a professora acrescentou que a pandemia dificultou a geração de lucros das escolas, que com agendas lotadas faziam a promoção de festas e eventos para movimentar o caixa na complementação da verba. “No caso do Colorado do Brás, uma parte do que é arrecadado é destinado à comunidade do Canindé, em que são distribuídas cestas básicas à população”.

A Colorado do Brás é como a casa de Diego Costa, diretor artístico da escola de samba que recebeu o Troféu Nota 10 como a Melhor Evolução do Grupo Especial em 2020. Responsável por acompanhar o processo coreográfico das alas específicas e ações cênicas em cima dos carros alegóricos, Costa conta sobre o sambódromo ser “o maior teatro a céu aberto do mundo” e criador de oportunidades de emprego e de economia para a cidade que o administra, o que pode gerar incerteza no futuro perante a crise presente. “O maior problema é a quantidade de empregos que estão estagnados e sem verba, já que as escolas de samba não podem trabalhar e realizar eventos que ocorrem durante o ano nas quadras”. Costureiras, aderecistas, serralheiros, escultores, coreógrafos, cantores, ateliês e etc. estão parados durante o período, mesmo que estes trabalhos fossem a principal fonte de renda de suas próprias famílias.


O coreógrafo ressalta que é necessário transparecer que quase todas as aglomerações do carnaval sugerem siglas sociais antes do seu nome, como a GRCSES Acadêmicos do Tucuruvi, que significa Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Acadêmicos do Tucuruvi. “O trabalho social varia de acordo com a escola e sua estrutura, como a Unidos de Vila Maria, que oferece aulas gratuitas para a comunidade, como capoeira, dança de salão, balé para crianças, equipe de dentistas e etc.”.


“Depois de quinze anos desfilando e sentindo medo de que as coisas não dariam certo na hora H, aprendi a ter esperança. Minha esperança diz que o mais importante é que a doença vai ter fim e que poderei ver a minha escola desfilar na avenida” comenta Dona Célia*, aposentada e moradora das redondezas em que a Acadêmicos do Tatuapé constrói seu arsenal e sustenta o título de Bicampeã do Carnaval de São Paulo. A escola é uma entre muitas que precisou fechar suas portas para os ensaios, outrora constantemente abertas para todos que passassem pela rua e sentissem curiosidade.


Acadêmicos do Tatuapé no Carnaval de São Paulo - 2017. [Imagem: Reprodução/Acadêmicos do Tatuapé]

Como Costa e Borges ressaltam, a escola de samba é feita de rostos de todas as idades e tons de pele, desde crianças até anciãos do samba. Sem a Ala das Crianças, Ala da Velha Guarda e a Ala das Baianas, o Carnaval não é o mesmo. Sem Carnaval, tampouco o Brasil é o mesmo.


*O nome foi alterado para preservar o anonimato.

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