• Manuel Savoldi

O não mais tão nosso Pacaembu

Poucas memórias me são mais queridas que as passadas no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, vulgo “o seu, o meu, o nosso… Pacaembu”, como a voz de Edson Sorriso, locutor do estádio, eternizou. Os momentos vão desde sonecas no intervalo do derby paulista, até jogos memoráveis, como a enfiada de quatro a zero do Palmeiras de Felipão no - badaladíssimo, diga-se de passagem - Santos de Sampaoli.


As histórias que o Pacaembu carrega são infindáveis. Inaugurado em 1940, durante suas duas primeiras décadas o estádio conciliou dois tipos de espetáculos. Os tradicionais jogos de futebol, que o acompanham até hoje, e os concertos de música clássica. As sinfonias eram abrigadas pela belíssima concha acústica que existia atrás de um dos gols. A estrutura permitia que todos que estivessem nas arquibancadas se tornassem uma grande plateia.







Pacaembu com concha acústica durante sua inauguração. Foto: Autor Desconhecido


Mas nos anos 60, isso mudou. O futebol já estava consolidado como o esporte mais popular do país e o Pacaembu, que era considerado o maior estádio do Brasil no momento de sua inauguração, já sofria para acomodar todos os torcedores que desejavam assistir às partidas do esporte bretão. Assim, em 1969, ele passou por uma grande reforma. A concha acústica veio abaixo e em seu lugar foi construída uma nova arquibancada, apelidada de “tobogã”, uma verdadeira aberração quando comparada à charmosa antecessora, mas que permitiu uma adição de 10 mil pessoas ao público total.


A história continuou, como sempre acontece. Nos anos seguintes, o São Paulo iria embora do estádio para jogar no recém-inaugurado Morumbi e o Corinthians adotaria o Pacaembu de vez como sua casa, deixando o Parque São Jorge.


Esse elo iria durar até a segunda década dos anos 2000, quando a “febre das arenas” chega ao país, impulsionada enormemente pela realização da Copa do Mundo de 2014 em solo tupiniquim. A maioria dos grandes clubes do Brasil vê seus estádios passarem por enormes reformas e modernizações, e a cidade de São Paulo não ficou para trás. Tanto Palmeiras como Corinthians irão mergulhar de cabeça. O primeiro irá reformar o tradicional Palestra Itália e o segundo construir um do zero, que acabará sediando a abertura da Copa.


Com a reforma, o Palmeiras volta a atuar temporariamente no Pacaembu, junto com o Corinthians, que nunca havia saído de lá. Lembrava os tempos áureos em que o estádio era o palco máximo de futebol na cidade.



Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu. Foto: Gabriel Cabral/Folhapress


A aura emitida pelo estádio em dias de jogos é algo que não se equipara com nenhum outro do país. A praça Charles Miller, que fica em frente, proporciona um encontro entre toda a torcida que chega para assistir à partida. Uma recepção digna do “país do futebol”, com uma amálgama de cores, sabores, cheiros e barulhos totalmente única. Nesses dias, o Pacaembu respira futebol.


Mas tudo que é bom dura pouco. Logo seus novos estádios foram inaugurados, ambos os times se mudaram do já septuagenário Pacaembu, que passou a receber menos e menos jogos. Em 2018, foi aprovada uma concessão para sua privatização, podendo ser explorado pela concessionária pelos próximos 35 anos.


Era previsto que houvesse jogos no estádio até meados deste ano, mas que não aconteceram em razão da pandemia. Nesse contexto, ele fez novamente parte da história, sediando um dos hospitais de campanha para atendimento de infectados pela covid-19. Após a desativação do complexo de saúde temporário, foi constatada uma grande deterioração do gramado, que era - de muito longe - a cancha mais bonita da cidade, havendo a necessidade de alguns meses de manutenção. De acordo com o líder do consórcio, esse tempo coincidiria com o começo das obras. Portanto, o estádio só poderá ser utilizado novamente para jogos em 2023. Haja saudades...


Com essa concessão muito será perdido e o Pacaembu nunca voltará a ser como antes. O motivo? Entre as mudanças que serão feitas no estádio está a demolição do tobogã. Isso até deveria ser motivo de felicidade, caso a concha acústica fosse restaurada em seu lugar, mas não é o caso. Está planejado para o local abrigar um prédio comercial, todo concretado, envidraçado e, como a maioria desses edifícios, sem alma.






Substituto do tobogã. Foto: Divulgação


O tobogã não era perfeito, tinha falhas, como uma visão não muito vantajosa do jogo, mas tinha qualidades, como a brisa fresca vinda das piscinas que ficam no complexo esportivo atrás do campo. Era um local extremamente agradável para apreciar uma partida de futebol.


Mas o que lhe dava mais valor era ser o último reduto de um futebol verdadeiramente democrático na cidade - considerando os grandes clubes, claro. Sua demolição só fortalece uma tendência que está sendo observada em São Paulo desde a chegada das arenas e seus ingressos exorbitantes. A expulsão de pessoas das camadas mais pobres dos jogos de futebol. Assim, a visão de uma arquibancada com um público diverso, reunido ali por uma paixão unânime pelo futebol, com todos sentados sobre o mesmo cimentão, virará uma visão cada vez mais rara. Esse é o verdadeiro espírito de um esporte que se clama tão democrático. Muito diferente do sentimento geral presente em tantas arquibancadas país afora, em que as pessoas muitas vezes são atraídas pelo status de comparecer ao estádio, ou para poder gerar conteúdo e turbinar suas redes, vendo o jogo mais pela telinha do que com os olhos, ouvidos e coração.


O futebol paulista perde demais com a derrubada do tobogã, perde um reduto de um sentimento genuíno, perde um local de encontro e além de tudo, perde um local de realidade, onde se pode enxergar um Brasil que muitos tentam esconder, que não é bonito e simples como tantas outras arquibancadas fazem parecer, mas que é, acima de tudo, verdadeiro. O Pacaembu deixa de ser tão nosso e passa a ser cada vez mais deles.







Estádio do Pacaembu, em toda sua glória, no clássico Corinthians x Palmeiras, São Paulo, SP, 01/9/1961. Foto: Acervo/Estadão


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