• Gabriele da Luz Mello

Mães universitárias: dificuldades que permanecem na USP

Apesar de tomar medidas para permanência na USP, mães universitárias ainda encontram dificuldades e falta de apoio para continuarem em seus cursos.


Por Gabriele da Luz Mello


[Imagem: Reprodução/Pixabay]


A Universidade de São Paulo é uma das mais bem avaliadas universidades públicas da América Latina. No entanto, em 2012, o Jornal do Campus publicou uma reportagem que mostrava que o apoio às mães estudantes na USP era insuficiente. Em 2022, a realidade das mães universitárias parece não ter mudado. Elas ainda relatam descaso e dificuldades, desde o deslocamento até a escassez de vagas em creches, passando pela falta de uma rede de apoio dentro da universidade, com exceção de colegas, também mães.

Os problemas relatados por mães universitárias não são exclusividade da USP. Falta acolhimento por parte da universidade, receptividade na infraestrutura e diversos estigmas ainda são perpetuados, tanto por professores quanto por alunos. “Os olhares eram uma coisa muito chata. Eu sofria preconceito de pessoas que não me conheciam. Por exemplo, eu ia pra fila do bandejão e via as pessoas comentando ‘nossa aquela menina novinha está grávida. Acabou com a vida dela’. Eu via isso nos corredores”, relata Gabriela Bataglia, que se formou em licenciatura em geociências e educação ambiental no último ano.


As dificuldades na gestação

As dificuldades e limitações impostas às mães na universidade se iniciam ainda durante a gestação. Nesse momento, preocupações com temas como a impossibilidade de conclusão do curso surgem. “Eu não queria desistir da faculdade porque era algo que estava nos meus planos. E eu sabia que se eu trancasse a faculdade, talvez eu não conseguisse concluir”, expõe Karina Rineer, que concluiu o curso de Nutrição na USP esse ano.

Assim como Karina, Giovana* é moradora da Zona Leste de São Paulo. Ela relata que um dos problemas é morar longe do seu campus, que fica no Butantã, Zona Oeste. “Eu vou de ônibus, vou de metrô. E quando a gente está grávida é muito cansativo ficar andando pegando ônibus”. Além disso, a estudante também declara sofrer com desrespeito à lei nº 10.048/00, que prevê assentos preferenciais a gestantes no transporte público e coletivo. “Muitas das pessoas não dão lugar. No ônibus, a gente se cansa. No circular também. Às vezes o motorista ou algum amigo que está comigo tem que pedir lugar”.

Para Gabriela, os problemas na gestação surgiram nas aulas de campo, momentos em que os alunos deixam a sala de aula e fazem visitas a locais abertos. Para alguns professores, ela não deveria frequentá-las. “Eles falavam ‘você não vai poder ir. Vão ser três dias e eu não quero essa responsabilidade pra mim’”. Ainda que algum professor tivesse objeção à presença de Gabriela nas aulas, o Protocolo de Conduta e Segurança em Aulas de Campo, do Instituto de Geociências da USP não coloca gravidez como um impeditivo à participação em visitas de campo.

Giovana* ainda revela sua apreensão quanto à amamentação e a licença maternidade. No Brasil, a Lei nº 6.202/75 regulamenta que a partir do oitavo mês da gestação e durante três meses, estudantes grávidas podem realizar atividades em casa. “O único auxílio que nós temos direito é o auxílio do governo (licença maternidade para estudantes). O que é um pouco difícil, porque a amamentação (exclusiva) é recomendada até os seis meses de idade. Eu gostaria de fazer a amamentação exclusiva”. Com o início da licença no oitavo mês, Giovana* voltaria a estudar presencialmente quando seu filho completasse dois meses.


E depois do parto?

Em manual técnico, o Ministério da Saúde coloca as primeiras semanas após o parto como um momento de vulnerabilidade da mãe. A relação entre a mãe e o bebê é intensamente emocional. Karina e Gabriela relatam esse como o momento de maior dificuldade, assim como é o momento que causa mais preocupação a Giovana*, que ainda está grávida. “Foi assim um misto de emoções pra mim. Eu tive episódios em que fiquei muito triste. Às vezes eu queria me isolar. Eu sentia um peso de que não daria conta das atividades, da faculdade, e que era muito pra mim”, conta Karina.

Neste ponto, o acolhimento e compreensão de professores se mostra essencial. Muitos deles têm condutas humanizadas, como conta Carol Viana, que cursou Saúde Pública na USP: “os professores me ajudaram bastante. Quando Gabriel ficava doente, me mandavam material, me auxiliaram muito. Ajudavam até com os cuidados com ele (durante as aulas)”. Contudo, nem todos têm a mesma receptividade. No final da gestação, Gabriela relata que um de seus professores se recusou a enviar os materiais necessários e atividades para que ela as realizasse de casa. “(Ele) foi contra. Falou que não podia sair, que não aceitaria, que não passaria nada pra casa. Ou ia pra aula ou não tinha jeito. Não queria nem saber da licença maternidade”.

Além disso, para garantir a permanência e dedicação dessas jovens aos estudos são necessárias políticas públicas, como acesso a creches. “Tive sorte de conseguir vaga na creche da USP quando o Gabriel completou 9 meses, foi onde eu consegui focar melhor no curso”, narra Carol. Atualmente, apenas duas creches funcionam vinculadas à Superintendência de Assistência Social (SAS) da USP na cidade de São Paulo. A Creche/Pré-Escola Central, na Cidade Universitária, e a Creche/Pré-Escola Saúde, na Faculdade de Saúde Pública (FSP). Das cento e vinte e duas vagas ofertadas para 2022, apenas quarenta e uma são para estudantes de graduação e pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado). Quando perguntada se a Universidade oferecia uma infraestrutura que acolhesse mães e crianças, Carol ainda completou: “Sim, a universidade tem escola, tem creches, tem recurso. Porém não é bem executado. Vimos a creche oeste sendo fechada (em 2017), sem justificativa. Mudaram a idade mínima para inscrever as crianças na creche, tudo isso foi dificultando o acolhimento das mães dentro da universidade”.

Pequenos passos para o acolhimento

Embora enfrentem muitos problemas, ainda existe uma rede de apoio que acolhe as mães universitárias dentro da USP. Uma medida criada em 2020, o programa intitulado Mãe e Pai Pesquisadores, já auxilia mães e pais bolsistas do programa de pós-graduação. A iniciativa é inovadora, sendo a USP a primeira universidade a oferecer seis meses de licença maternidade remunerada e um mês de licença paternidade remunerada.

Apesar de o mesmo não ser oferecido para as alunas de graduação, existem atividades voltadas para elas. “Uma coisa que eu achei ‘superlegal’ foi que, por exemplo, lá no CEPE (Centro de Práticas Esportivas da USP) eu cheguei a fazer pilates para gestantes. A gente aprendeu bastante coisa pra auxiliar na hora parto”, conta Gabriela. Mas, ela também aponta que não é algo conhecido por todos os alunos: “depois conversando com outras mães universitárias, elas não sabiam que tinha isso lá. Foi uma coisa que que quem me falou foi minha assistente social”.

Foi relatado pelas entrevistadas que, em seus casos, houve acolhimento dos colegas de sala. “Na minha sala eu tenho mais três mães e eu eu tenho muito apoio tanto delas, quanto dos outros colegas”, comenta Giovana*. Da mesma forma, Carol diz que Gabriel, seu filho, virou o “mascote da sala”. A família também é vista como um suporte fundamental em alguns casos: “Mas eu sei que eu não teria conseguido se eu não tivesse tido essa rede de apoio (família). Porque quando eu ia pra faculdade eu tinha pessoas para cuidar da minha filha”, conta Karina.

No entanto, o principal acolhimento vem de outras mães, que criam uma rede de apoio e informação entre elas: “Nos dois últimos anos tive o prazer de fazer parte de um grupo de mães da USP. Trocamos experiências, fizemos piquenique com as crianças, tivemos uma rede de apoio uma nas outras. Tenho certeza que esse grupo me ajudou muito a não desistir da graduação, me mostraram que minhas angústias muitas vezes eram as mesmas que as delas”, diz Carol.


*Nome modificado a pedido da entrevistada.


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