• Lorena Corona

A transformação social a partir do acesso à cultura

A democratização do acesso à cultura não é realidade no Brasil, um país desigual que prega a exclusão das minorias e a marginalização da periferia


Por Lorena Corona


[Imagem: Reprodução/Flickr]


Sem cultura, ignorantes, bandidos, sem educação. É assim que o Brasil vê os moradores da periferia: de forma animalesca e preconceituosa. Além de terem que lidar com altos índices de violência (principalmente policial), essas pessoas são excluídas de seus direitos, não tendo pleno acesso à educação, à saúde e à cultura.


Além disso, há um racismo escancarado na distribuição da riqueza. Segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 55,8% da população em 2018 se declarou preta ou parda. Entretanto, no estrato dos 10% com maior rendimento per capita, os brancos representavam 70,6%, enquanto os negros eram 27,7%. Entre os 10% de menor rendimento, há uma inversão: 75,2% são negros, e 23,7%, brancos. De acordo com outro levantamento do IBGE, 44% dos pretos e pardos vivem em cidades sem cinemas, contra 34% da população branca; 37%, em cidades sem museus, contra 25% dos brancos.


Mas… existe cultura na periferia?

Para a surpresa de muitos, sim, existe cultura na periferia. Há inúmeros núcleos e projetos, muitos criados pelos próprios moradores, relacionados às mais diversas áreas culturais: dança, música, artes visuais, cênicas e etc, com o objetivo de alcançar uma maior democratização do acesso às belas artes.


Por exemplo, a Associação de Arte e Cultura Periferia Invisível, localizada no bairro da Vila Sílvia, em São Paulo, nasceu em 2009 com o objetivo de democratizar a cultura na Zona Leste de São Paulo, mais especificamente, na região de Ermelino Matarazzo. O projeto foi iniciado após o fechamento do Teatro Flávio Império, que era o principal polo público de cultura da região, quando moradores e artistas locais se uniram para fundar o então Projeto Periferia Invisível.


A Associação integra a rede de Pontos de Cultura do Município de São Paulo, realizando diversas atividades culturais na Zona Leste, como oficinas de formação artística, produção musical, eventos multilinguagens, entre outros. Segundo o site do órgão, “a transformação da realidade passa fundamentalmente pela democratização cultural, tanto dos meios de produção artística e do conhecimento, quanto dos espaços e das atividades culturais.”


Há também na região do Bom Retiro, o Núcleo Luz, projeto artístico-pedagógico gratuito que utiliza a dança como elemento de transformação social. Voltada preferencialmente para jovens de baixa renda, a iniciativa foi criada em 2007 e faz parte do Programa Fábricas de Cultura da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, sendo gerenciado pela POIESIS - Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura. O Núcleo Luz oferece três cursos que fazem parte do seu programa pedagógico:

Ciclo I: Curso de experimentação em dança para jovens de 14 a 21 anos. Os alunos podem permanecer por até três anos e recebem mensalmente bolsa-auxílio de R$100,00, auxílio-alimentação e auxílio-transporte.

Ciclo II: Curso de formação voltado para jovens de 17 a 24 anos já com alguma experiência com dança. O curso tem duração de dois anos e os jovens recebem mensalmente bolsa-auxílio de R$700,00, auxílio-alimentação e auxílio-transporte. Esse ciclo tem o objetivo de possibilitar a atuação dos alunos como artistas independentes.

Oficina: A Oficina Núcleo Luz | Movimento, Corpo e Expressão é um minicurso de experimentação em práticas corporais com duração de dois meses, ocorrido semestralmente e voltado a jovens de 14 a 22 anos.

Dançarinos do projeto Núcleo Luz [Imagem: Reprodução/Arthur Roessle]


A marginalização dos ritmos periféricos

O funk, o samba e o rap tem mais em comum do que se imagina. Todos se originaram a partir de grupos de pessoas negras: no caso do samba, a partir das rodas de dança dos africanos escravizados; já no caso do rap, suas origens vêm da Jamaica, nos anos 1960, se espalhando entre negros e latinos pelo Bronx, em Nova York (EUA); por fim, o funk surgiu também nos anos 1960 nos Estados Unidos, derivado da soul music – gênero musical produzido principalmente por artistas negros.


As origens desses ritmos retomam a cultura da comunidade negra e hoje, os três são fortemente rejeitados, evidenciando ainda mais a intensa presença do racismo no Brasil.


Para o sambista e sociólogo Tadeu Augusto Matheus, os gêneros musicais periféricos são contra narrativas que mostram uma visão mais real dos diversos âmbitos da sociedade. “O samba, o rap, o hip hop e em certa medida o funk trazem uma narrativa que está fora da ideia imposta pela mídia hegemônica e infelizmente pelos livros didáticos, sobretudo os das primeiras formações”, diz Tadeu. Ele ainda acrescenta que “são contra narrativas importantes que nos fazem compreender a dimensão do país pela perspectiva mais real, de como nos relacionamos social, econômica e politicamente”.

[Imagem: Reprodução/Flickr]


A representatividade como fator transformador da sociedade

Se ver representado em alguma produção cultural encoraja a luta pela ocupação de lugares de direito, mas que são negados a muitos, principalmente às minorias e à população periférica. Por exemplo, quando uma mulher vê em uma obra artística outra mulher em alguma posição de poder, que geralmente é ocupada por homens, ela se sente apoiada e motivada a batalhar por essa igualdade, por essa presença feminina mais constante, que lhe é de direito.


De acordo com a professora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), Gabriela Santos Alves, a representatividade nas produções culturais é de suma importância para a continuidade da luta pela diversidade. “Quando a gente dá visibilidade, quando a gente fala sobre um assunto, a gente faz ele se tornar real. Enquanto está ali nos guetos, dentro de discursos que não chegam, que não tomam essa materialização é como se não existisse, para a narrativa e para o discurso é assim que acontece. Então é super importante falar sobre isso, principalmente num país de viés tão conservador como tem se mostrado nos últimos anos”, declara Gabriela.


A pós-doutora pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) ainda citou como exemplo dessa movimentação por uma maior visibilidade das minorias, o filme Pantera Negra (2018). “Pantera Negra por exemplo, a gente pôde ver muitas crianças negras indo ao cinema, foi um movimento muito bonito. Isso evidencia que tem um público diversificado de pessoas negras e de crianças, principalmente, que requerem essa representatividade. Já passou da hora da gente promover na indústria audiovisual esse tipo de presença e de representatividade de mulheres, pessoas negras, da população LGBTQIA+”, complementou.


“Se não há políticas públicas que promovam a vida dessas pessoas, que promovam o combate em relação a violência contra esses corpos, como que a gente vai continuar narrando sobre isso?”. A professora considera fundamental essa representatividade. Para ela, “trazer essa representatividade para as telas, é uma forma também de enfrentamento a essa violência do Estado. É como se a gente dissesse: ‘Olha, nós estamos vivos, nós estamos aqui’. A gente tem essa presença, essa representação e a gente continua a lutar por isso”.


A periferia é muito mais do que a mídia hegemônica mostra. A violência e as atrocidades que ocorrem nestas áreas são apresentadas como um espetáculo e sempre com uma visão de fora, de uma elite dominante e excludente. Não são mostrados os inúmeros artistas incríveis, atletas inigualáveis e mentes pensantes que saíram da periferia e hoje mudam o mundo.

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