• Mariana Zancanelli

Professores desenvolvem projetos para estimular o interesse de estudantes I: Sociologia

Docentes atuam em sala de aula e na internet relacionando os conteúdos e a realidade prática


Por Mariana Zancanelli


Imagem: Freepik

Desde o início da pandemia, professores de filosofia e sociologia, em busca de atrair a atenção dos estudantes, se empenham em oferecer novas abordagens dos conteúdos. Por meio de postagens na internet ou reflexões em sala de aula, os educadores tentam evitar o desinteresse das turmas, especialmente nos bairros periféricos.


A sociologia nos Racionais MC’s


Com a inclusão do livro “Sobrevivendo no Inferno” (baseado no álbum dos Racionais MC’s de mesmo título) na lista de leituras obrigatórias da Unicamp, a professora de sociologia Bruna Cinquini decidiu abordar a obra para tratar de algumas questões na escola estadual em que lecionava. “O que eu mais queria era, a partir das músicas, fazer uma relação com o conteúdo que a gente tinha aprendido ao longo do curso, para mostrar que aquela teoria pode fazer sentido com a realidade”, explica a docente.


A proposta foi analisar com os estudantes uma composição a cada semana e iniciar debates acerca da temática citada na canção. “Alguns alunos tinham uma realidade um pouco mais privilegiada, outros tinham uma realidade que estava mais próxima das músicas. E às vezes houve um embate nesse sentido, e eu acho que isso é ótimo.” A professora acrescenta que as turmas, durante essas discussões, se tornaram muito mais ativas, pois foi como se eles tivessem se encorajado e sentissem mais propriedade para debater os assuntos.


Além disso, o projeto serviu para, através das composições, humanizar alguns objetos de estudo da sociologia, que inclusive fazem parte da vida na periferia. “Acho que refletir sobre músicas que falam de um país racista e desigual faz muito sentido quando vamos discutir sociólogos e sociólogas que tratam desses temas, você consegue fazer melhor as relações”, afirma Bruna.


A letra de “Diário de um detento”, por exemplo, fez com que alguns estudantes questionassem, assim como outros autores, qual o papel da prisão na sociedade e se ela não estaria excedendo sua atribuição de privar da liberdade quando causa a humilhação e tira a dignidade dos presos.


Mano Brown no clipe da música “Diário de um detento”, que conta a história do massacre do Carandiru, episódio em que 111 presos foram assassinados na penitenciária. Imagem: Reprodução/Youtube

Para a docente, cuja maior dificuldade foi trabalhar tantos aspectos em apenas uma aula por semana, o projeto foi importante para mostrar que outras formas de conhecimento, como rap de periferia, também são legítimas — diferentemente do que as instituições escolares pregam muitas vezes.


Projeto de vida


Como efeito do período de isolamento social causado pela pandemia, questões socioemocionais passaram a receber cada vez mais atenção. Diante desse cenário angustiante, um programa foi implementado pelo Ministério da Educação nas grades curriculares de escolas públicas para tratar desses aspectos: o chamado Projeto de Vida.


Para Kassiano Baptista — que é professor de sociologia e um dos responsáveis pelo projeto em uma escola estadual na Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo — é uma oportunidade importante para ensinar coisas simples e básicas, mas que os alunos precisam muito escutar.


Enquanto no ensino médio as conversas são mais voltadas para vestibular e profissões; no fundamental II a abordagem tende a abordar o papel de cada um na sociedade, a relação com o outro e a convivência. “Envolve muita autoavaliação, autoconhecimento, autocuidado. É uma sociologia disfarçada, são as coisas básicas da sociologia: o homem e a sociedade, o adolescente e a sociedade”, explica o professor, que vê o Projeto de Vida como forma de introduzir algumas temáticas da sociologia para os alunos do 6º ao 9º ano, que ainda não têm a disciplina na programação.


Introdução ao Projeto de Vida na apostila do 9º ano. Foto: Beatryz Pechutti

O educador relata que pode ser complexo desenvolver algumas conversas, pois existem muitas particularidades entre os estudantes. “A gente pega um contexto de salas de aula cheias, como trabalhar as individualidades dos alunos numa sala de 45 [discentes]?”. Além disso, alguns alunos têm mais flexibilidade para absorverem novas ideias do que outros, o que também dificulta em alguns momentos. Kassiano diz perceber muita relutância nessa geração de alunos: “Essa molecada é muito teimosa, eles são muito resistentes.”


Apesar disso, o professor acredita que a assimilação de tantas informações acontece aos poucos. “Tem que ter um tempo de maturação para o desenvolvimento [dos estudantes].” Ele acrescenta ainda que não é por meio de avaliações imediatas que serão constatados os efeitos do projeto: “essas questões a gente vai perceber mais a longo prazo.”


Sociologia para crianças


Ainda antes da pandemia, a pequena Alice fazia muitos questionamentos complexos para a mãe — Tatiana Amêndola, professora de sociologia —, que decidiu respondê-los como mãe e socióloga ao mesmo tempo.


As duas, com auxílio de um editor, criaram então o “Sociologia para crianças”, um podcast caseiro que explica, de forma leve e descomplicada, o que é política, feminismo, religião, capitalismo e muito mais.


Para a segunda temporada, a dupla decidiu iniciar debates a partir de obras audiovisuais infantis, como, por exemplo, Moana e a importância de conhecer sua própria história. Já na terceira, foram estudados alguns opostos, como o rico e o pobre, o consumo e o consumismo.

O episódio sobre o filme Enrolados compara o isolamento vivido por Rapunzel com o recente distanciamento social. Imagens: Reprodução/Instagram

Segundo a professora Tatiana, é essencial que o contato com a sociologia comece desde cedo. “Quanto mais tarde as pessoas começam a pensar criticamente o mundo, mais complicado é adquirir essa vontade, esse hábito e esse interesse por pensar mais profundamente.” A mãe da Alice acrescenta que é muito importante pesquisar com as próprias crianças sobre as perguntas que elas fazem, mantendo viva a curiosidade.


Os adultos muitas vezes negligenciam os questionamentos dos pequenos, de acordo com Tatiana. Ela aponta a sobrecarga e a falta de tempo dos pais como um dos motivos para isso, ou ainda o próprio desinteresse da família que impede a dedicação aos temas — o que acaba “contaminando” a criança e perpetuando, de certa forma, a alienação.


Saiba mais

Confira a opinião de estudantes, análise de docentes sobre a instituição escolar e outros projetos similares a estes, porém voltados ao ensino de filosofia, clicando aqui.


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