• Guilherme Castro

O formato das cidades e seu impacto na saúde da periferia

O modo como grandes metrópoles são projetadas influenciam diretamente na saúde de cidadãos de baixa renda


Por Guilherme Castro

[Imagem: Reprodução/ Pixabay]

A organização espacial das periferias brasileiras é resultado do processo predatório de industrialização, que relegou a população urbana mais pobre às margens das cidades. Sem direitos básicos assegurados, como água potável e saneamento básico adequado, os moradores desses espaços ficam vulneráveis a inúmeras doenças e quadros prejudiciais à saúde. Durante a pandemia do Covid-19, a precarização nas favelas mostrou-se ainda mais evidente através do grande número de casos e dificuldade no controle do vírus, o que pôs em foco possíveis razões para a acentuação desse cenário ao longo dos anos.

Saúde e lugar nas favelas brasileiras


Ainda que comportem cerca de 8% da população, as favelas do Brasil sobrevivem com indicadores sociais preocupantes e desamparo estatal. À luz do SARS-CoV-2, problemas sanitários se tornam cada vez mais frequentes, gerados não só pela falta de comprometimento dos setores responsáveis, mas também pela estruturação desigual das grandes metrópoles. Doenças infectocontagiosas, por exemplo, transitam facilmente entre os moradores de baixa renda, facilitadas pela composição estreita das ruas onde moram, ou pela necessidade de ir ao trabalho em transportes superlotados. A escassez no abastecimento de água, por sua vez, possibilita a propagação rápida de enfermidades, haja vista sua distribuição intermitente e de fácil contaminação.


Doenças psíquicas também aparecem nesse panorama, com um expressivo avanço da depressão nas camadas mais pobres, fruto da violência cotidiana e estigmas cultivados socialmente, o que dificulta a busca por tratamento.


“A população mais pobre, na periferia, tem um padrão de renda, escolaridade e acesso a serviços que decorrem de sua condição econômica. Não se trata de carência, mas de uma desigualdade social estruturalmente projetada”, diz Aurea Maria Zöllner Ianni ao Central Periférica. Segundo ela, o formato em que as favelas são construídas diz respeito à urgência e necessidade dos moradores, embora a precariedade contribua para a insalubridade da habitação e fomente impasses. Além disso, cidades como São Paulo, por exemplo, ao serem dispostas em raios, onde a maior concentração de empregos, serviços e áreas de lazer encontra-se no centro e longe das favelas, comprometem a mobilidade urbana e qualidade de vida.

A importância do acesso


Para Ianni, uma das razões que permitem a vulnerabilidade nas periferias é o encarecimento do valor do solo urbano, que força os mais pobres à autoconstrução de suas casas, com materiais pouco adequados e sem acabamento completo, o que resulta em umidade, falta de ventilação e aglomeração dos espaços. Somado à falta de saneamento básico — que resulta em água contaminada e redes de esgoto impróprias — o formato estreito das vielas compromete outros serviços de atuarem efetivamente, como a coleta de lixo, e viabiliza a circulação de doenças.


Apesar de existirem Clínicas da Família e outros terminais de pronto atendimento em múltiplas regiões periféricas, a persistência e aumento de casos de doenças como a Leishmaniose, além do Covid-19, se relacionam diretamente com o espaço onde as pessoas residem e as possibilidades que lhe são negadas. Não entender as particularidades das favelas fomenta o avanço de preocupantes questões sanitárias.


Nesse viés, há também a falta de áreas verdes, bem como a privatização desenfreada de parques, que configuram um impedimento na vida dos cidadãos de baixa renda. Com ambientes de lazer escassos, poucas opções de mobilidade, serviços básicos distantes de casa, a saúde e o bem estar acabam sendo cerceados. “Os problemas de saúde não têm uma natureza puramente biológica ou fisiológica, mas se articulam às condições objetivas de vida. A ausência de determinados locais na periferia, sobretudo de elementos simples e essenciais à vida, contribuem para o agravamento dos quadros de vulnerabilidade”, relata a docente. Embora não resolvam o problema de imediato, lugares para recreação ou desenvolvimento de aptidões, por exemplo, contribuem para minar o estresse e insegurança do dia a dia.


Por outro lado, Zollner destaca que há muito a ser feito para reparar a desigualdade que constitui a estruturação das cidades. De acordo com ela, “é imprescindível uma reforma urbana, que leve em conta o valor da terra doada, a ocupação da propriedade da terra urbana, o acesso a serviços públicos, a melhoria no saneamento básico e a implementação de mais áreas de lazer e espaços verdes nas periferias”.



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