• Gabriel Tavares

ExpoFavela 2022: por dentro da feira de potencialização do empreendedorismo na periferia

Atualizado: 19 de mai.

Durante três dias, o público teve oportunidade de conhecer empreendedores da favela, além de participar de painéis com personalidades negras de renome nacional


Por Gabriel Tavares


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

São Paulo recebeu a primeira edição da ExpoFavela, evento que promoveu o “encontro de oportunidades para a favela e o asfalto”, como reforçado por Celso Athayde, idealizador da feira. Entre 15 e 17 abril, empreendedores e startups da favela ocuparam o WTC Events Center, localizado em região considerada nobre na capital paulista, para apresentar criações, projetos, produtos e ideias.


O resultado do grande evento, descrito por muitos entrevistados, foi de representatividade. Composta por uma equipe majoritariamente da periferia, a ExpoFavela contou ainda com painéis que debateram temas atuais e urgentes para a população brasileira, em especial a periférica. Personalidades como Preto Zezé, Andréia Sadi, Adriana Barbosa, Nina Silva, Rachel Maia, Emicida, Regina Casé e Kondzilla estiveram presentes e abordaram temas políticos, econômicos, sociais e culturais.


O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, esteve presente na abertura da ExpoFavela e conversou com o Central Periférica. Para ele, o espírito empreendedor já faz parte da periferia, mas precisa ser despertado. “Precisamos despertar o espírito empreendedor. Isso é algo fundamental. Às vezes as pessoas têm e não sabem que têm. Olhar a favela não só como um ambiente normal, mas sim um ambiente que tem potencial gigantesco de pessoas, da capacidade de empreender. Quando você potencializa as pessoas, as coisas acontecem naturalmente”, concluiu.


Para a Secretária Municipal de Cultura, Aline Torres, o maior impacto do evento foi conseguir impulsionar as potências de periferias e favelas. “Hoje é o melhor espelho, porque as pessoas estão vindo aqui, se olhando no espelho e se vendo representadas”, afirmou Torres.


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

Veja abaixo o vídeo completo da entrevista com Nunes e Torres.



O portal Central Periférica também conversou com expositores presentes no evento e traz a seguir um pouco de suas histórias.


José Marcio - Quitem


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

O principal entusiasta da iniciativa que José Márcio começou a construir durante a pandemia é ele mesmo, e o motivo é nobre: colaborar para a inclusão digital de comerciantes excluídos por grandes plataformas de vendas. O empreendedor de Francisco Morato era dono de uma loja de bomboniere há mais de 15 anos, mas a pandemia fez seus lucros caírem mais de 90%. Com isso, ele precisou vender a loja e decidiu começar a vender seus produtos pela internet.


Porém, ele se deparou com um mercado dominado por grandes empresas, com altas taxas e, principalmente, sem capilaridade nas comunidades periféricas. Então, o comerciante se juntou com um amigo e decidiu criar uma plataforma de vendas online para conectar a comunidade a ela mesma, a “Quitem”.


A ideia é que cada consumidor possa digitar o seu CEP para localizar lojas e prestadores de serviços ao seu redor, ajudando assim a movimentar a economia local. Na feira, o empreendedor foi em busca de recursos para viabilizar a plataforma.


“Eu busco investimento para poder iniciar o projeto em Francisco Morato. Eu fiz um plano piloto e já gastei sete mil reais do próprio bolso. O que mais sinto falta é de um profissional de Web Designer consegue moldar a plataforma, que foi a minha dificuldade, quando parei o projeto”, contou Morato para o Central Periférica. Ele considera que nasceu para empreender: “você acredita, você vende”.


Leandro Souza – Marque a Sua Geração


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

Marque a sua geração: esse é o título da autobiografia de Leandro Souza, um palestrante de 24 anos. Também instrutor de primeiros socorros, o jovem autor decidiu escrever seu livro ao perceber que os adolescentes ao seu redor estavam sem perspectiva de futuro. O inconformismo é o principal combustível para que ele supere as dificuldades e alcance seus sonhos: ser médico e ser uma referência de impacto para a sociedade.


Nesse sentido, a obra é, segundo ele, uma forma de trazer esperança para a juventude e não ser apenas uma estatística. “Assim como ela [a juventude], eu preciso olhar para o outro para enxergar suporte, para enxergar esperança. Da mesma forma que eu enxergo isso no outro, eu quero ser um suporte dessa geração. Basicamente, eu busquei escrever para isso”, conta.


Entretanto, mesmo com a vontade de fazer a diferença, Leandro sentiu os impactos da exclusão e invisibilidade social. “Por um momento, eu pensei que a minha história não cabia aqui, porque eu cresci na zona leste de São Paulo, eu cresci escutando que não poderia chegar em lugar algum, sendo empurrado para trás e puxado para baixo”. Isso mudou quando, na semana do evento, um de seus professores lhe convidou para apresentar seu livro durante a ExpoFavela. “Na segunda-feira à noite, eu entrei no site e lá estava escrito: ‘você que é escritor da favela, entre em contato com a gente para expor seu livro’”.


Mais uma vez, o tema representatividade voltou a ser mencionado. O jovem conta que já conheceu muitas pessoas, mas a primeira vez que se sentiu representado foi durante um painel com a empresária Rachel Maia durante a ExpoFavela. “Na palestra dela, eu entreguei um livro meu e falei isso. Eu me senti representado ali. Por que isso resume o que digo: nós precisamos olhar para pessoas e sentir esperança. A primeira pessoa que eu olhei e me transmitiu esperança foi a Rachel Maia”, finaliza.


João Belmonte e Felipe do Carmo - Geloteca


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

Conexões ajudam. É assim que os idealizadores da Geloteca, iniciativa que transforma geladeiras usadas em bibliotecas comunitárias nas periferias, descrevem o impacto da ExpoFavela para o projeto. “É um espaço que as pessoas enxergam o que a gente enxerga. Fora daqui é muito difícil. Por exemplo, eu trabalho em um estúdio, e quando levam uma geladeira para a gente, eu sempre sinto essa empolgação porque eu sei do impacto. Os colegas não [sentem] porque é outra visão”, conta João Belmonte, que há seis anos leva o projeto em frente junto com Felipe do Carmo, ambos professores.


Belmonte conta qual é a grande recompensa de todo o trabalho coletivo. “Uma menina chegou na gente e falou: ‘sou estudante de enfermagem e eu peguei os livros esse ano aqui na Geloteca”. O professor explica que uma das bibliotecas comunitárias, localizada em um posto de saúde, recebe doações de livros didáticos deixados pelos profissionais da unidade. “Essa garota que é da periferia da Zona Norte está estudando pelos livros. É esse o movimento”, finaliza.


Diferentemente de outros expositores, o motivo de trazer a Geloteca para a ExpoFavela não era buscar financiamento, mas sim conhecer outras pessoas que possam colaborar com o projeto. Felipe conta que agora a Geloteca já recebe alunos do ensino fundamental para montar as bibliotecas coletivas. “A gente multiplicou pessoas para socializar o nosso sonho: fazer das quebradas as referências em hábitos de leitura”. Ele se mostra indignado com a taxação de livros pelo governo, fato este que, na visão do idealizador, dificulta o acesso e colabora para o baixo índice de leitura no Brasil. “Então a gente quebra [essa falta de] acesso às bibliotecas públicas, que são longe da periferia. Nós criamos minibibliotecas independentes em vários locais”.


Consuelo Gonçalves – Feira de Mulheres Negras


[Gabriel Tavares / Arquivo Pessoal]

“Nós nos identificamos muito com o espaço de feira, porque somos uma feira em primeiro lugar. Também ocupamos espaços ditos nobres das cidades”, conta Consuelo Gonçalves, em referência ao WTC Events Center, local de realização da ExpoFavela. Nascida no Rio Grande do Sul e moradora do Recôncavo Baiano há 20 anos, ela é a organizadora da Feira de Mulheres Negras na cidade de Cachoeira (BA) e veio para São Paulo para representar o grupo composto por cerca de 35 artesãs.


“Não imaginava que chegaríamos na última fase. Isso para nós é muito importante, porque foram 20 mil empreendimentos inscritos. 1700 foram convocados e 300 vieram. Ficamos entre 40 empreendimentos que de onde sairiam os dez para concorrer ao prêmio final. Chegamos perto de estarmos nesse reality [show] com os nossos produtos, identidade, cultura, história e a memória dessas mulheres”, conta.


O reality show mencionado pela artesã, "ExpoFavela: o Desafio", foi gravado durante os tres dias de evento e, posteriormente, transmitido pela TV Globo no programa “É de Casa”. O vencedor foi Mateus Diniz, que desenvolveu o app “Todas Por Uma”, voltado contra a violência doméstica. Ele recebeu um prêmio de R$ 80 mil para impulsionar o projeto, já presente em 12 países.


Consuelo, devota de Maria Mãe de Jesus, ressaltou a importância da data em que a ExpoFavela ocorreu. “A própria páscoa, o próprio processo de Jesus Cristo pode estar nos trazendo para juntarmos as pessoas nesse lugar, no dia da Páscoa, para fazer algo ressurgir disso que estamos vivendo de tão terrível. Todas as coisas terríveis desse tempo. Talvez a gente precisasse estar aqui mesmo nesse dia, nessa Sexta-Feira Santa, para que algo aconteça. Está acontecendo”, contou emocionada.


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