• Lara Arruda Paiva

Capítulo 1: Os leitores — Série "Literatura periférica na pandemia"

Leitores periféricos compartilham suas experiências durante a pandemia, tentativas de tornar livros acessíveis e sua conexão com a literatura

Por Lara Arruda Paiva

Arte: Lara Arruda Paiva

Em agosto de 2020, o Ministro da Economia Paulo Guedes propôs o fim da isenção de taxação aos livros. Desde 1946 o mercado do livro não paga impostos no Brasil, uma medida defendida pelo autor Jorge Amado para tornar a literatura mais acessível. Essa mudança significaria que 12% do valor de um livro iria para os cofres do governo. Para se ter uma ideia, o autor do livro recebe somente 10%.


A justificativa do Ministro é que "só os ricos leem". Essa medida dificultaria o acesso à literatura para pessoas periféricas, o que poderia tornar a leitura ainda mais elitizada. Layce Marques Correia, que mora em Realengo (RJ) e estuda Literatura na UFRJ, pensa que tal medida seria uma forma de atrasar a instrução dos mais pobres: "Os livros são fontes de conhecimento. Conhecimento é poder. Não é do interesse do nosso Governo dar poder às classes baixas, nem hoje e nem nunca", ela diz.


Arte: Lara Arruda Paiva

Segundo a pesquisa Retratos da Literatura do Brasil, realizada em 2019 pelo Instituto Pró-Livro, 31% dos brasileiros entrevistados nunca compraram um livro em sua vida. O aumento do preço destes teria um aumento catastrófico nessa estatística já imensamente preocupante. "Ao invés de criar imposto sobre os livros, deveriam criar projetos que incluam e incentivem a literatura e educação para a população mais pobre, dando mais oportunidades aos jovens e adultos", diz Nayara Kaory, estudante e moradora do Conjunto Habitacional José Bonifácio (SP).


Mesmo com tentativas de dificultar o acesso aos livros pelo governo, muito se está sendo feito para impedir essa medida. A campanha #defendaolivro repercutiu nas redes sociais, e uma petição contra a taxação arrecadou quase 1,5 milhão de assinaturas. Além disso, cada vez mais estão sendo feitos esforços por parte de comunidades para estimular o hábito da leitura na periferia. Bibliotecas comunitárias são cada vez mais frequentes, e projetos culturais – como a Bienal da Quebrada e a Festa Literária das Periferias (Flup) – conquistam vários moradores de periferia.


A pandemia, além de uma crise econômica, levou muitos a redescobrir seus hábitos de leitura. Layce conta que "pude voltar aos velhos hábitos de leitura constante, me ajudou muito a me centrar no meio de tanto caos". Para ela, narrativas escapistas são as que mais a atraem: "ter a possibilidade de viver além da minha realidade é o que mais me encanta". Nayara pensa de forma semelhante: "toda vez que [se] sentia triste, os livros faziam companhia".

Arte: Lara Arruda Paiva

Os livros podem ocupar outras funções fora o entretenimento para Layce: "se torna algo extremamente importante para minha formação como cidadã", relata. Ela fala também da grande importância da representatividade nas suas leituras. Sua autora favorita, Conceição Evaristo, descreve perfeitamente a vivência de mulheres negras da classe baixa, segundo ela.


Nayara percebe o impacto que a leitura causou na sua vida: "os livros me dão coragem", diz ela, "sei que nem tudo está perdido e me dá esperanças sobre um novo mundo". Para que mais pessoas sejam impactadas de tal modo, deve-se lutar para tornar livros cada vez mais acessíveis.


Reportagens seguintes:

Capítulo 2: As Autoras

Capítulo 3: As Editoras

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