• Luísa Idrani e Júlia Rodrigues

Mais pobres têm futuro incerto em 2021

Atualizado: 27 de Nov de 2020

Vida dos mais pobres deve ser mais difícil em 2021



Com o fim da ajuda emergencial em dezembro e sem a definição de um programa substituto, o próximo ano será imprevisível para população mais pobre


Por Luísa Hirata Idrani e Júlia Azevedo Rodrigues


[Foto: Reprodução/ Roberta Aline/ CidadeVerde.com]

O auxílio emergencial foi a única renda para muitas famílias em 2020. Projeções da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostram que 16 milhões de pessoas passarão a viver com menos de R$ 522,50/mês, voltando ao patamar pré-pandemia. Assim, a pobreza atingirá 31% da população brasileira no próximo ano. Os mais pobres, fragilizados em função da retração econômica, terão grandes dificuldades para se reerguer sem o benefício.

O auxílio, aprovado pelo Congresso Nacional e pago pelo governo federal para minimizar os efeitos da pandemia sobre o emprego, se direciona aos informais, autônomos e desempregados. Estima-se que, dos 38 milhões que receberam a primeira parcela, mas não estão inscritos no Cadastro Único e por isso serão desassistidos, 74% são de baixa renda (até R$ 1.254), 55%, de pouca escolaridade (até o ensino fundamental) e 64%, trabalhadores informais.


A economia teria que passar por uma recuperação muito forte para evitar esse cenário, calculado a partir dos microdados da PnadC (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) e da Pnad Covid-19. A expectativa é que o desemprego ficará entre 17% e 19% no ano que vem.



Mais pobres

Moradora do Jardim Miriam, bairro periférico da Zona Sul de São Paulo, Maria Elda de Souza Lima vive com a filha Karla, empregada doméstica com carteira assinada, e o neto Davi. Ela recebeu as seis parcelas de R$ 600,00 de abril a agosto, e continua recebendo o auxílio estendido, no valor de R$ 300,00 até o fim do ano. Por ter artrite e artrose, doenças sem cura, Maria não consegue mais trabalhar como costureira, usando o auxílio para comprar comida e seus remédios, que aliviam as dores nas articulações e não são cobertos pelo SUS (Sistema Unificado de Saúde).


Perguntada sobre como vai ficar a situação em 2021, Maria é incerta. “Não sei te dizer. Eu quero ver se consigo algum benefício. Vamos supor, se a gente ganha 100 reais, a gente tem que se virar e viver com 100 reais. Agora, sem nada é difícil”, afirma.

Ivânia da Silva sente essa mesma incerteza. Vizinha de Maria, ela vive no primeiro andar da casa alugada por cinco famílias. Recebe o auxílio desde maio e depende também da doação de cestas básicas, móveis e eletrodomésticos feita pela Igreja que frequenta, já que perdeu os pertences após uma tentativa frustrada de se mudar para o Rio de Janeiro.


Desempregada desde 2013 e já com 55 anos, além das dores nas costas provocadas pelo bico de papagaio, Ivânia tem apenas o filho para ajudá-la, além dos membros da Igreja. Tentou vários bicos ao longo dos anos, mas por sua pouca qualificação e idade avançada, as chances de conseguir um emprego fixo são baixas, menores ainda com a crise do coronavírus. Sobre 2021, Ivânia se agarra à fé que tem em Deus: “eu vou ficar na graça de Deus, pra não falar outra coisa. Não sei como vai ser”.


Alimentação

Do outro lado da rua, Michelle Silva Ferreira dos Santos, mãe de duas crianças, esteve desempregada até julho, e seu marido, marceneiro no pequeno negócio do pai, perdeu os clientes com a pandemia. Para comer, além do auxílio, a família recebeu ajuda do pai de Michelle para comprar feijão, bolacha e leite para Tiffany (2), que toma 750 mL por dia. A carne vermelha foi trocada por ovo, nugget e frango.

A situação de Michelle corresponde aos números da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Em São Paulo, o preço do feijão cresceu 46%, do leite, 57%, e da carne, 38%, nos últimos 12 meses. Melhora, possivelmente, somente em 2021.


Assegurar o básico e promover o desenvolvimento regional

Ladislau Dowbor, economista e professor da PUC-SP, defende uma renda básica que vá além do Bolsa Família não só para evitar o aumento da pobreza, mas também para fazer a roda da economia girar.“ [Esse repasse] é o principal eixo para o futuro do país, porque a economia se dinamiza pela base: quando você tem dinheiro na mão das famílias, na massa da população, ele se transforma em consumo, que gera demanda e dinamiza as atividades empresariais”, explica o economista. É o ciclo produtivo que se constitui de demanda e consumo, gerando retorno ao Estado (impostos sobre o consumo e produção) e aos empresários, o que cria, por sua vez, empregos.


Com os impostos, o financiamento público pode se voltar à infraestrutura, para melhorar a produtividade empresarial, e às políticas sociais, indispensáveis para o bem-estar das famílias e que não são compradas pelo dinheiro.


Professor Ladislau Dowbor (PUC-SP) fala sobre a urgência do repasse de renda às classes mais baixas.


“É preciso redirecionar o dinheiro para onde ele dinamize a economia e proteja a população”, diz Dowbor sobre o enriquecimento de bilionários no Brasil revelado pela revista Forbes. “[Um aumento de] R$ 180 bilhões, que é igual a 6 anos de Bolsa Família, para pessoas que já eram bilionárias, que são intermediários financeiros, banqueiros, donos de ações. Não são gente que produz e não pagam imposto, porque lucros e dividendos são isentos no Brasil”.


Além disso, falta inclusão produtiva. O economista chama a atenção para os 60 milhões de brasileiros subutilizados (40 milhões são informais, 14 milhões, desempregados, e 6 milhões desistiram de procurar trabalho). “É uma burrice em termos econômicos, porque toda essa gente poderia estar produzindo, e é um escândalo ético porque não foram os pobres que montaram esse sistema absurdo de austeridade que está entupindo os banqueiros de dinheiro em vez de usá-lo de maneira produtiva”, avalia.

Para isso, o professor propõe o investimento no desenvolvimento municipal, com programas como os cinturões verdes hortifrutigranjeiros, o aproveitamento de terras de latifundiários paradas, a distribuição de internet banda larga e o saneamento básico que previne doenças e, assim, poupa recursos.


Renda Brasil/Cidadã

O presidente Jair Bolsonaro anunciou planos para o Renda Brasil ou Renda Cidadã, programa que vai ampliar os benefícios do Bolsa Família e, dessa forma, extingui-lo. Até o dia 11/11, não houve sinais do governo de que o projeto estará pronto já no primeiro semestre de 2021. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o auxílio emergencial só será pago ano que vem se houver uma nova onda de coronavírus.

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