• Ricardo Thomé

Projeto Cozinha Escola Solidária combate a fome, especializa cozinheiros e ampara quem precisa

Casa no coração de São Paulo se torna centro de distribuição de alimentos e oferece cursos especializantes para a inserção no mercado de trabalho

Por Ricardo Thomé


[Fotos: Reprodução/Instagram @bibli_aspa e Divulgação/Prefeitura de São Paulo]


No centro de São Paulo, em Santa Cecília, funciona uma outra forma de cozinha solidária. Na Bibli-ASPA (Biblioteca Centro de Pesquisa América do Sul Países Árabes), sem-teto, imigrantes e refugiados são acolhidos e recebem o auxílio de doações.


Por se tratar de um centro de pesquisa e de acolhimento, ninguém dorme na casa, que pertenceu a uma família de cafeicultores e é tombada. As pessoas são encaminhadas para centros maiores na região central da cidade, como na Rua José Bonifácio, na Sé. [Foto: Divulgação/Bibli-ASPA]


Embora fuja aos padrões de cozinha solidária, por não se localizar em uma região periférica da cidade, a Bibli-ASPA acolhe e abrange um público periférico, que, em zonas nobres, acaba por ser ainda mais ignorado e marginalizado. Com o crescente aumento no número de pessoas sem-teto, esse trabalho humanitário passa a ser de ainda mais urgência.


A Bibli-ASPA tem uma parceria com a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDH) e do Movimento Estadual da População em Situação de Rua (MEPSR), para a promoção do projeto Cozinha Escola Solidária. [Foto: Reprodução/Instagram: @bibli_aspa]


Tendo isso em vista, a Central Periférica foi até o local para conhecer as atividades e participar da rotina de trabalho.


Miltino Joaquim de Souza Neto, o Tino, é um dos coordenadores das atividades desenvolvidas no espaço e na cozinha solidária da instituição, que ganhou uma cozinha industrial recentemente. Ele apresentou o lugar e explicou como funciona o processo de acolhimento. [Fotos: Arquivo Pessoal/Ricardo Thomé]



A Bibli-ASPA vive, basicamente, de parcerias e doações. Tino conta que os itens doados passam por um filtro antes de serem colocados, ou à disposição de quem tiver necessidade, ou em um bazar, para comércio e angariamento de fundos para a entidade.



Quem tiver necessidade, pode retirar até cinco peças de roupa no dia no local, como doação. [Foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Thomé]




Nessa sala, ficam os itens que são comercializados no bazar da instituição. [Foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Thomé]



Além disso, Tino diz que aqueles que são acolhidos não só podem, como devem participar dos cursos técnicos oferecidos pelo Sebrae, que visam à capacitação profissional e à inserção no mercado de trabalho. Em casos como esse, o foco fica sobre os imigrantes e refugiados, o que explica o significado de Bibli-ASPA. Por isso, muitos estrangeiros chegam à instituição para terem aulas de português também.

Nem por isso, porém, a casa deixa de ser um local aberto a todos que precisarem de ajuda e também aos que quiserem colaborar. A seguir, algumas das pessoas que foram amparadas pela Bibli-ASPA e que hoje estão do outro lado, auxiliando quem mais precisa.


Rafael (Puff)

Rafael, apelidado de Puff pelos colegas de trabalho, é carioca, ex-morador de rua, e hoje trabalha como auxiliar de cozinha na Bibli-ASPA, onde faz também cursos profissionalizantes. Ele conta como chegou lá: “Vivi praticamente minha vida inteira [na rua]. Infância, adolescência, uma parte da vida adulta. Até que eu conheci o Robson Mendonça, que é o presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, e teve essa ideia de criar esse projeto da cozinha solidária. Aí eu já estou com ele há uns quatro anos. O projeto é recente, estamos indo para o quinto mês”.



Puff relata não ter tido muitas dificuldades com o trabalho na cozinha, pois vem de família baiana e já sabia cozinhar. [Foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Thomé]



Rafael conta que a pandemia não cessou a ajuda aos moradores de rua: “A gente nunca parou. Infelizmente [esse público] está só aumentando, morrendo”, diz. Ele explica que, hoje em dia, pouco se beneficia dos itens disponibilizados para doação, preferindo deixar para aqueles que têm mais necessidade, já que quem trabalha na Cozinha recebe uma ajuda de custo.

Toda essa produção e auxílio só é possível, segundo Puff, devido a uma emenda parlamentar que propicia a distribuição de recursos à entidade: “Algumas coisas são de doação e outras a gente compra com a ajuda da emenda parlamentar [do vereador George Hato (MDB), liberada em novembro de 2021 e que destinou um milhão de reais à escola]. A gente recebe um dinheiro e a gente investe nos mantimentos para comprar o que precisa”, conta.

Hoje vivendo na sede da ONG, na Rua José Bonifácio, centro de São Paulo, Puff vê essa sua entrada na Bibli-ASPA como uma escola, e se diz grato por poder contribuir para a ajuda a pessoas que passam por dificuldades que ele enfrentou na maior parte de sua vida: “Eu sei como é estar ali, em situação de rua, doação, depender disso. Então isso se torna bem gratificante porque eu estou ajudando pessoas que viveram comigo, independente se eu conheço ou não, se teve amizade ou não”, diz.

Antes de se despedir da reportagem, Puff enumerou as etapas do processo de produção diária da Bibli-ASPA, que prepara e distribui 755 marmitas por dia:


“Começamos às seis da manhã, aí preparamos o almoço, armazenamos tudo em marmitas, colocamos nas caixas, tudo lavado, e levamos para a sede. Cerca de dez e meia, já está tudo pronto. Meio-dia e meia é servido lá [nos pontos de doação]. 755 marmitas todos os dias. De noite, quando está muito frio, a gente faz algumas doações, mas aí é preparado lá na sede”. [Arte e Fotos: Ricardo Thomé]



Robson Mendonça, a quem Puff se referiu, é hoje presidente da ONG Biblioteca e do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, e sua história é de impressionar a qualquer um. Em entrevista cedida em 2012 ao “Provocações” (atual “Provoca”), da TV Cultura, à época ancorado por Antônio Abujamra, Mendonça disse que a mudança para São Paulo se deu pela necessidade encontrada por sua família de sair do interior e viver em uma grande cidade, propiciando melhor estudo para seus filhos.


Robson criou o projeto Bicicloteca, para poder levar a leitura à população em situação de rua que, por preconceito ou ausência de comprovante de residência, não tem acesso aos livros. [Foto: Wikimedia Commons]



Ele contou que foi sequestrado logo que chegou à capital paulista, tendo todo o seu dinheiro roubado. Gaúcho e ex-pecuarista, ele se viu na necessidade de viver na rua, algo impensável para alguém que tinha sua vida. Presidente do MEPSR desde 2005, Robson não vive mais na rua, mas em sua experiência percebeu como o tratamento e o amparo àqueles que vivem nessa situação é precário. Por isso, lidera uma série de iniciativas e de projetos em prol dessas pessoas, o que inclui o Cozinha Escola Solidária, que só saiu do papel devido aos seus protestos.


Eliane

Até a pandemia começar, Eliane trabalhava na cozinha do buffet Abelhinha, em Cajamar, e morava no bairro da Fazendinha, em Santana do Parnaíba, São Paulo. Com a necessidade de isolamento social imposta pelo Covid-19, festas e eventos como um todo passaram a ser cancelados, o que levou a uma demissão em massa no setor de eventos, incluindo nos buffets. E Eliane não foi exceção: seu chefe se viu obrigado a demiti-la, o que a levou a uma situação complicada: ela não tinha dinheiro nem para o pagar o aluguel de sua casa, nem para comprar comida.



Fã de panetone, Eliane se considera uma guerreira. Ela valoriza o que tem hoje, mas quer sempre mais. [Foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Thomé]



Mãe de três filhos e avó de sete netos, Eliane viu como única alternativa mudar-se para debaixo da ponte do Brás, onde uma de suas filhas já estava. E, ao contrário do que se pode imaginar, a mudança foi positiva para ela: “No pouco tempo em que eu estava lá, eu já não estava passando a fome que eu estava passando pagando aluguel. Fiquei sentada ali, passavam, davam um saco de pão, e então eu falei: ‘Aqui está melhor do que lá, não passo fome’”, conta.

E assim ela fez. Depois de alguns dias embaixo da ponte, Eliane lembra que foi para uma ocupação, onde vive até hoje. Ela trouxe suas filhas e deixou de vez a casa onde vivia. “Ficar na casa dos outros pedindo de canequinha, triste, né?”, completa.

Pouco tempo depois, Eliane conheceu Márcia, moradora de rua da Praça Marechal Deodoro: “A Márcia me apresentou a Daiane e o seu Robson [Mendonça], porque eles passam lá pra dar comida pro pessoal. Aí eu pedi um emprego pra ela”.

Entusiasta dos cursos oferecidos na Bibli-ASPA, a auxiliar de cozinha conta que sempre incentiva seus netos a aprenderem: "É uma coisa que eu valorizo muito. A gente tem um aprendizado. Eu falo muito pros meus netos, pras minhas filhas, que antigamente a gente não tinha quem falasse: ‘Vai fazer um curso’. Não tinha nada de graça! E eu não tinha esses conhecimentos que eu tenho hoje”.

Toda essa motivação se deve ao fato de que, quando criança, ela não teve acesso a esse tipo de aprendizado: “Meu primeiro emprego foi no lixão, aos sete anos. Eu achava que pela necessidade que tinha em casa desde criança, tinha que ter algum meio de ganhar dinheiro. E eu tive coragem, fui lá e conversei com o dono [do lixão] eu mesma! Ajudava a mãe, ia no mercado com um monte de sacola nas costas”, conta.

Para Eliane, a vida da criança que vai para a rua nos dias de hoje é mais difícil do que em sua época, e, por isso, é importante estar atento às oportunidades: “Antigamente, a gente sabia que podia trabalhar numa roça e não ouvia falar de droga. Sempre fui pra esse lado: quando a gente pensa que tá no fundo do poço, sempre aparece alguém pra falar: ‘Ah, vai em tal lugar ali que você consegue!’. Porque se ficar em casa esperando, você não vai conseguir nada! Não vai encher a barriga, não vai saber o que tá acontecendo lá fora…E eu agradeço muito a Deus, ao seu Robson, à Daiane, à minha amiga Márcia”, diz.

Eliane também compartilhou sua paixão por panetone, e o quanto as doações contribuíram para que ela pudesse passar esse gosto para frente: “A gente teve muita doação na praça. Ganhava roupa, sabonete, cesta básica…ia com os meus netos, e enchia o carrinho de panetone! Eu amo panetone! E eu não comprava muito, porque as condições não davam. ”, conta, com um sorriso no rosto.



“Eu como de tudo. Não sou muito de escolher. Pra mim está bom! Não estamos passando fome, que nem no começo da pandemia!”. É com esse espírito que Eliane prepara refeições para centenas de pessoas todos os dias. [Foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Thomé]



Em dado momento da gravação da entrevista, Eliane foi interrompida, pois tinha acabado de receber a doação de uma cama de casal. A partir daí, seu sorriso, naturalmente contagiante, abriu-se ainda mais: “Aqui é uma benção! Aqui é o começo de tudo. Quando a gente está feliz…eu falava para os meus filhos assim: ‘Puxa, eu trabalhei num lixão, comia isso, comia aquilo, porque eu queria ajudar a minha mãe’. Sabe, explicando pra eles como era a vida da gente e como é diferente pra eles hoje! Hoje eles podem ir para cima”.

Ela finalizou demonstrando sua gratidão: “Eu sou uma mãe, uma avó, que sai de casa às cinco, super feliz, alegre, porque eu estou ali! Deus me deu mais um dia de vida, né? Maravilhoso. Eu agradeço! Três horas da manhã eu oro”


Vânia

Givonete, ou Dona Vânia, como é conhecida entre seus colegas, coordena a cozinha da Bibli-ASPA juntamente com Tino. Tudo o que é feito passa pelas suas habilidosas mãos, e ela faz questão de que as pessoas provem sua comida. Nascida em Jequié, Bahia, veio para São Paulo aos 14 anos, chegou a cuidar de crianças, mas logo foi trabalhar em restaurantes e se aproximou da culinária.



“A gente faz tudo alegre, cantando, sorridente. É muito bom!”. Dona Vânia é um exemplo do ‘cozinhar por amor’. [Foto: Arquivo Pessoal/Ricardo Thomé]



Sua chegada à Bibli-ASPA se deu exatamente pela valorização de seu trabalho: “Eu trabalhava na Rua Santa Rosa [no Brás, São Paulo], num restaurante, e a Stella, coordenadora da Bibli-ASPA, era cliente de lá. E ela pegou meu contato, falou que estava com esse projeto e me convidou quando inaugurou. Aí eu vim, ela gostou do meu trabalho e me contratou. Eles falam que eu cozinho bem! Amo o que eu faço, faço com muito amor e carinho, gosto muito”, conta.

Perguntada sobre o sentimento de ajudar tantas pessoas com seu trabalho, Dona Vânia se diz emocionada: “Eu me sinto muito feliz. O que eu puder ajudar a contribuir estou aqui. É uma coisa triste, muito ruim, uma pessoa sentir fome e não ter o pão de cada dia. Eu cozinho aqui como se fosse pra minha família. Fico emocionada quando as pessoas estão se alimentando e gostando. E agora estamos fazendo sopa, né? Dois caldeirões de sopa todos os dias, é muito bom”. A sopa a que Vânia se referiu tem sido servida nas noites frias na Comunidade do Moinho e na Praça Marechal Deodoro.

A reportagem da Central Periférica provou a comida de Dona Vânia e garante: é boa demais!


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