• Danilo Queiroz

OS PERIGOS DE UMA ÚNICA EDUCAÇÃO

Atualizado: 5 de jul.

Os sonhos quase nunca realizados de minorias sociais vítimas de um sistema educacional excludente


Por Danilo Queiroz


"É muito triste não saber quem você é pelo simples fato de não saber escrever meu nome. Parece que nem sou gente. Quando eu escrevo me sinto viva". Conta, Sueli, moradora da comunidade São Remo e estudante do programa de alfabetização há cinco anos.


Foto: Danilo Queiroz


Em meio à pandemia, de acordo com o IBGE, 40% dos matriculados nos programas de alfabetização, no Brasil, abandonaram os estudos devido à falta de adaptação aos formatos digitais. Uma vez que a favela historicamente é tratada com um distanciamento social perverso que ultrapassa qualquer pandemia, e é impactada com um grande abismo social até na questão educacional. Por isso, estudar já é uma forma de resistência no Brasil, que até 1964 proibiu a expressão cidadã de iletrados através do voto político.

Desse modo, a periferia vem se mostrando cada vez mais poderosa, a fim de reverter, ainda, os altos índices de analfabetismo nos becos e vielas deste país, superando qualquer eufemismo imposto na realidade de favelados, que encontram na educação um caminho para vencer na vida. Segundo a professora Fabiana de Oliveira, responsável pelo projeto de alfabetização na comunidade São Remo, na Zona Oeste de São Paulo, “enquanto a sociedade não reconhecer a potência da periferia através da pedagogia do olhar jamais reconhecerá do que a favela é capaz de construir." E essa pedagogia se faz entendendo que cada estudante possui uma realidade única e é preciso desenvolvê-la para enxergar isso. Educação se faz com respeito, e respeito às particularidades de cada periférico, seja a idosa que retornou aos estudos ou até mesmo a realidade do trabalhador das quebradas. Sala de aula é lugar de construção de pluralidades, e não de mundos tão iguais. Dentro de cada viela há muita história ainda para ser contada.


ENTRE OS BECOS TINHA UMA ESCOLA

Pensando em resolver os mais de 11 milhões de analfabetos oficiais, no Brasil, sendo quase 4 milhões somente no Estado de São Paulo de acordo com a Fundação Seade , a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo em parceria com entidades religiosas desenvolveram o projeto Mova, programa de alfabetização presente em todo o Estado da maior metrópole do Brasil. Tal movimento acredita na integração política e cultural no processo de ensino-aprendizagem, a partir da construção de debates em sala de aula e até mesmo no ensino de arte no processo de construção cidadã.

O programa na comunidade São Remo iniciou em meados de 2007, após a procura dos responsáveis pelas crianças inseridas no Projeto Girassol, outro serviço no coletivo Agente que desenvolve o ensino de atividades culturais e reforços escolares no período de contraturno da educação regular das crianças do bairro. A grande maioria desses responsáveis enxergavam nos menores uma inspiração para continuar os estudos e poder recuperar o tempo perdido em construir uma educação formal, embora superar a expectativa de vida do periférico de 25 anos representa muita coisa.

Já o programa de alfabetização direcionado aos jovens e adultos visa o desenvolvimento do letramento aos estudantes que foram impedidos de exercer tal direito na infância, devido à variadas causas ou a preferência pela questão trabalhista, como conta a estudante Sueli, natural de Itabuna, cidade do interior da Bahia que relata que infelizmente seu pai precisou tirá-la da escola por não ter o dinheiro do uniforme, só restou ajudar na lavoura do pai. Ela ainda conta que mesmo com uma carga horária excessiva de trabalho sendo empregada doméstica, sempre faz o possível para participar do projeto Mova. Para ela aprender leva tempo e cada um tem o seu. O dela embora passados cinco anos agraciados pela paciência da professora Fabiana ao relatar a importância do acolhimento da educadora para não desistir das dificuldades do aprendizado, ainda sente que necessita permanecer no projeto para melhorar a leitura e a escrita.


Da esquerda para a direita Dona Lica, Sueli, professora Fabiana e Maria das Graças.

[Foto: Danilo Queiroz]


EDUCAR É UMA FERRAMENTA POLÍTICA

O projeto inspirado no Educador Paulo Freire visa não só o desenvolvimento da leitura e escrita, mas também fortalecer a cidadania por meio do ensino da música, esporte e principalmente os debates em sala de aula de forma crítica ao desenvolver a importância da participação popular. Exemplo disso visto nas metodologias desenvolvidas pela professora Fabiana seria aprender noções de educação financeira de forma prática, através da alta de preços em um mercadinho na comunidade ou até mesmo perceber que mesmo na globalização da informação nem todos os estudantes têm acesso à internet.

Prova disso foi reverter esse obstáculo na pandemia não só através de atividades impressas a cada 15 dias recebidas na unidade do projeto para os estudantes desconectados da realidade global, como compreender a realidade e as dificuldades de cada um através de ligações individuais a cada aluno, reconhecendo a importância primordial da saúde mental antes mesmo do ensino técnico-formal. Para o gestor e também Doutor em Ciência Social, pela USP, Elbio Miyahira embora seja contraditório compreender que há 50 metros entre a maior Universidade do Brasil em produção científica e a comunidade São Remo, responsável também por construir a Universidade, ainda não foi desenvolvida nenhuma solução que possa reverter essa forma de viver desconectada, ou melhor sobreviver, uma vez que a favela permanece unida através do coletivo nela desenvolvido.

"Estamos do lado do maior centro de pesquisa do país. A USP só é mantida devido ao financiamento que os próprios moradores e também funcionários da própria Universidade contribuem. É triste enxergar que um muro de 20 centímetros separa duas realidades tão distintas em um local público que os próprios moradores da São Remo desconhecem que podem acessar. No mínimo, os próprios universitários deveriam possuir uma obrigação moral em trazer um retorno para a sociedade, seja a comunidade São Remo ou outras periferias." Elbio Miyahira também pontua.


A cada aula os alunos compreendem que a educação na verdade é para todos

[Foto: Danilo Queiroz]


BEM AVENTURADO OS QUE SONHAM

Mesmo diante desse distanciamento e dessa desconexão global ainda há sonhos a serem realizados, mesmo que a sociedade urbana não enxergue isso. Por isso, como conta Maria das Graças, natural de Barro Alto, cidade do interior da Bahia, mesmo que hoje não seja vista por além de ser periférica e moradora de uma ocupação sem-terra, a idade não pode ser um impedimento para construir uma nova perspectiva de vida. “Não há nada melhor que saber ler o nome do ônibus que tá passando. A gente começa a se sentir livre pra escolher nosso próprio caminho na vida. Meu sonho é poder trabalhar na igreja e poder ler na bíblia sozinha: ‘Os velhos terão sonhos.’ E eu tenho. E muitos. Mesmo que isso leve um tempo para acontecer.”

E por falar em idade, não há exemplo melhor que Maria da Conceição, ou como conhecida entre os colegas de sala de aula, Dona Lica, 88 anos, natural de Rio Vermelho, Minas Gerais , ao relembrar que em sua infância foi impedida de estudar porque precisava cuidar dos irmãos e das atividades domésticas de casa. Aprisionada pelo tempo e pelo primeiro emprego em São Paulo, aos 36 anos, conta que sua patroa não a deixava livre para aprender a ler e a escrever sua própria história, pois, para Dona Lica, foi reservado um presente disposto apenas a servir como empregada doméstica e um futuro imprevisível. Ainda bem, que a anfitriã da sala reservou esse futuro para si e mesmo com a vista cansada sabe que precisava enxergar uma nova realidade. E agora, cuidando não exclusivamente dos outros, mas dela mesma. "Trabalhava como empregada doméstica. Não parava nunca. A vida do pobre é assim. Eu precisava parar um pouco. O pobre não para nunca" .

Frases como essas que relembram a continuidade das dores do que é sobreviver em um país sendo periférico e analfabeto. Histórias como essas presentes não só em 1960 nos escritos de Carolina de Jesus, escritora preta e semianalfabeta que fez dos papéis que catava registro das dificuldades em não poder ser lida. Seja para Carolina, na favela do Canindé, ou para Sueli, Maria das Graças e Dona Lica, na favela de São Remo.

Dona Lica encerra seu relato escrevendo em seu caderno o que está escrito na lousa: Educação é para todos. E é mesmo, mesmo que isso demore.


AINDA FALTA MUITO PARA MELHORAR

Embora o projeto hoje disponha de 20 estudantes, possui apenas 2 homens. Sendo um deles, o Eduardo Justino, 33 anos, natural de Natal, capital do Rio Grande do Norte que no início acreditava que não tinha capacidade nenhuma de aprender. Hoje, ele percebe o quanto evoluiu e o quão necessária está sendo sua participação no projeto para conseguir se desenvolver melhor no emprego. Embora, o projeto Agente já tenha impactado pouco mais de cinco mil estudantes não só do Mova, como também do projeto Girassol, o gestor Elbio Miyahira ainda acredita que há muito a se fazer, a fim de ampliar o impacto social que o projeto Agente tem desenvolvido na comunidade São Remo revertendo os índices não só de iletramento, como também construindo a expressão cidadã na comunidade não pelo voto político, mas pelo envolvimento da arte e do esporte com os moradores da comunidade.

O Mova na pandemia acabou interrompendo suas atividades de alfabetização no Circo-escola devido a diminuição das verbas no programa. Hoje, após o retorno das atividades presenciais o projeto Agente tem arrecadado não só materiais escolares, como também equipamentos musicais e arrecadando livros para a biblioteca do espaço, como também pretende ampliar a unidade a fim de receber mais estudantes através da campanha de doação de Nota Fiscal Paulista, no qual você põe seu CPF na nota e uma parte do imposto retorna ao consumidor. Para doar basta cadastrar a entidade Agente como beneficiária dos seus créditos das suas notas fiscais no site. O impacto social disso é absurdo, uma vez que por ser um projeto de política social, o Governo reverte isso além do valor da sua compra, gerando um lucro social impactante.

Por isso, como dito por Celso Athayde, um dos fundadores da Central Única das Favelas (CUFA) do Brasil, "a favela não é carência, é potência". E potência se faz a partir de uma força que estimule o desenvolvimento coletivo. Essa força é a educação, e na São Remo, o estímulo é a professora Fabiana Oliveira. Isso é só o começo. A favela vai vencer através da educação.


Para maiores informações de todo o impacto que a Associação Metodista Livre Agente vem realizando acesse https://agente.org.br/.


Divulgação: Danilo Queiroz

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