• Nathalie Rodrigues

O Novo Ensino Médio nas escolas públicas: os impactos da implementação

Apesar do objetivo de mitigar a evasão escolar, é uma mudança que desconsidera a infraestrutura das escolas públicas e gera mais desafios operacionais e socioeconômicos para a educação


Por Nathalie Rodrigues


Aprovado por lei em 2017, o Novo Ensino Médio começou a ser implementado gradualmente a partir deste ano, partindo da 1ª série. As principais mudanças são na carga horária dos estudantes, que agora passarão mais tempo nas escolas e a criação dos itinerários formativos que se tratam de áreas do conhecimento as quais os alunos poderão escolher se aprofundar. A previsão é que em 2023 o modelo seja implementado na 2ª série e em 2024 na 3ª até que seja concluída.


[imagem: Pixabay/ Pexels]


Na teoria a mudança ocorre para aumentar a satisfação dos estudantes com as escolas e conter a evasão escolar, mas, conforme a professora de Língua Portuguesa, Edineia Leite, “na prática percebe-se que ela [a evasão] poderá aumentar, a partir do momento que o aluno não consegue trabalhar e muitas vezes os itinerários não contemplam suas expectativas”, comenta. A professora já foi Coordenadora de Ensino Médio por dez anos e acompanhou a implementação do Novo Ensino Médio na Escola Estadual Padre Simon Switzar, em Poá (SP).


Como fica a carga horária e os itinerários formativos?

A nova carga horária deve ser ampliada de quatro para cinco horas diárias, mas o Ministério da Educação (MEC) pretende atingir o equivalente a sete horas diárias futuramente. No currículo tradicional, 2400 horas eram destinadas única e exclusivamente para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Agora a proposta é que os alunos estudem por três mil horas, sendo 1800 dedicadas ao que é estipulado na BNCC e 1200 aos itinerários formativos escolhidos de acordo com a área do conhecimento: Matemáticas e suas Tecnologias, Linguagens e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e Formação Técnica Profissional. Edineia Leite alerta que o aumento da carga horária não significa necessariamente mais aprendizado, pois “com a redução das disciplinas é perceptível que afetará a aprendizagem de qualidade”.

Mesmo com a escolha dos itinerários por áreas do conhecimento, nenhuma disciplina da BNCC deixará de ser lecionada. O objetivo da mudança é que o aluno foque mais no itinerário formativo escolhido. Eric Vellone Coló, diretor de escola estadual, mestre em Educação e professor da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede municipal de Santo André (SP), explica que quando o aluno opta por um itinerário focado em determinada área do conhecimento, consequentemente ele terá menos aulas de outras áreas. “Não é que vai sumir a disciplina, não é que ele nunca mais vai ter uma aula de matemática na vida [caso escolha o itinerário de linguagens, por exemplo], mas ele vai ter menos aulas nesse sentido, sim”, afirma.

Implicações do aumento da carga horária

Uma pesquisa realizada pelo pelo Instituto FSB Pesquisa ouviu dois mil alunos dos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul para medir o grau de satisfação com a reforma e cerca de 77% responderam que estão satisfeitos ou muito satisfeitos com o Novo Ensino Médio, enquanto referente ao currículo tradicional esse percentual é de 70%. A proporção de alunos que já consideram sair da escola caiu de 17% para 13%. Porém, 29% dos que já pensaram em abandonar os estudos apontam como motivo a necessidade de trabalhar, uma vez que passarão mais tempo na escola.

Coló afirma que as escolas podem enfrentar dificuldades operacionais e físicas, ele diz que os alunos do período noturno precisam entrar mais cedo, enquanto os alunos da tarde, geralmente do Ensino Fundamental, ainda estão em aula. Esse problema será enfrentado em grande parte das escolas do país, pois cerca de 40% das escolas de ensino médio têm turmas durante os três turnos e precisarão encontrar uma forma para aumentar a carga horária sem que haja perdas.

Uma alternativa é a oferta do ensino à distância. O diretor aponta que os jovens que trabalham ou que têm algum outro tipo de compromisso, têm dificuldades em frequentar as aulas. Devido a isso, algumas escolas optaram por apresentar os conteúdos dos itinerários formativos em formato EaD. “Aí vem aquela questão da conectividade do acesso igualitário dos recursos. Então esse é um desafio que eu diria que não é só da educação, isso é um desafio social” acrescenta.


Infraestrutura das escolas

A oferta dos itinerários formativos é feita pela escola. Os alunos indicam pelo sistema da Secretaria da Educação qual área têm interesse em cursar e a instituição tem a obrigatoriedade de oferecer pelo menos duas opções de itinerários, podendo estes serem mistos. As indicações realizadas pelos estudantes serão contabilizadas pela escola e as ofertas serão de acordo com as condições operacionais da instituição. "No final das contas, a opção do estudante é válida, mas ela é limitada por questões operacionais”, conclui o diretor Eric Vellone Coló. Já a professora Edineia Leite diz que “com certeza isso restringe as chances dos estudantes cursarem algo que realmente gostam”.

Outro fator importante é a questão das transferências entre instituições que não oferecem os mesmos itinerários. O estudante que realizar uma transferência pode ter que começar um outro itinerário e não terminar o anterior. Coló opina que “esse é um problema que a sociedade precisa ajudar a escola a responder”.


Principais diferenças entre a rede pública e privada: aumento das desigualdades

Além da diferença na infraestrutura, outro problema que o diretor aponta é a dificuldade da interdisciplinaridade. Na rede privada esse “intercâmbio de disciplinas” é maior, enquanto na rede pública é algo que ainda precisa ser trabalhado. “A educação, nesse sentido, acaba sendo vista como caixinhas, como se o professor de arte não fosse colaborar com a matemática”, acrescenta.

É preciso considerar também a insuficiência da disponibilidade de verbas para as escolas estaduais implementarem itinerários diversificados, o que será ainda mais evidente em comparação com as escolas particulares, as quais poderão ofertar itinerários com maior diversidade e possibilidades de escolha.


Situação da Fundação Casa de Santo André

Eric Vellone Coló destaca também uma situação de descaso com a rede pública de educação, desta vez na Fundação Casa de Santo André. A Secretaria da Educação publicou uma resolução no final de 2021 desobrigando as instituições com essa modalidade de ensino a ofertarem pelo menos dois itinerários formativos além de permitirem a criação de classes multisseriadas. O motivo dessa medida seria a falta de espaço e infraestrutura limitada. “Os estudantes não estão tendo todas as aulas do itinerário formativo, isso é um problema porque, do ponto de vista prático, eles não tiveram a oportunidade de escolha, foi uma decisão que veio de cima para baixo”, comenta o diretor.


[divulgação: APEOESP]


Em resumo, os alunos da fundação não estão tendo aulas conforme o Novo Ensino Médio, o que aumenta ainda mais a desigualdade e exclusão, além de não terem o mesmo direito de escolha de área de conhecimento que os alunos do ensino regular já obtêm.


E agora? Precisamos refletir sobre os impactos da educação no futuro

O Novo Ensino Médio já está sendo implementado, mas a professora Edineia Leite acredita que a reforma deveria ter sido feita de forma gradativa, desde o Ensino Fundamental, “afinal construímos uma casa pelo alicerce e não pelo telhado”. Coló diz que essa reforma é uma oportunidade para pensarmos qual a formação queremos para os jovens pobres e que no momento é um desafio que está permitindo às escolas repensarem no estudante que é formado na terceira série do ensino médio. “Quem é essa pessoa? Ela está pronta para ser um cidadão? Ela está pronta para ser crítica?”, o diretor provoca a reflexão.

De fato, de uma reforma que ocorreu com pouca participação das escolas e dos estudantes, espera-se que, naturalmente, haja desafios a serem enfrentados. A questão que fica é se a sociedade encontrará as soluções necessárias para a adequação da implementação do Novo Ensino Médio de forma eficiente e rápida, a ponto de evitar efeitos negativos no futuro desses jovens.


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