• Giulia Portelinha

O jardim de Eva

A história por trás do projeto de revitalização da Praça da Amizade na São Remo


Por Giulia Portelinha

Imagem: Giulia Portelinha


Passando despercebidos entre os muros da universidade, um caminho antes livre e aberto, hoje parece estreito demais para quem um dia fez parte da história de sua construção. Mulheres, jovens, adultos, crianças curiosas, um moço que passa de bicicleta ouvindo rap, funcionários da universidade, estudantes, poetas e revolucionários. Houve um tempo em que a USP não tinha muros e o campus era um local livre para o encontro entre as pessoas da São Remo e os docentes.


A Praça da Amizade, ao lado do portão de pedestres da USP - São Remo, simboliza este vínculo, que mesmo após a construção de barreiras, ainda permanece vivo. Dona Eva, tia Eva, ou simplesmente a Eva dona do boteco foi quem ergueu a pracinha, onde hoje, cada vez mais, as crianças se reúnem para brincar.


No começo, era completamente cercada por plantas, que a Dona Eva mesma cultivava. Depois que ela se foi, os moradores Camila Santos e Eraldo da Silva, seu esposo, continuaram com os cuidados, firmando uma parceria com o projeto Batatas Jardineiras. Durante a pandemia, alguns habitantes da comunidade ocuparam o local e iniciou-se um processo de desmatamento. Mas a Camilia e o Eraldo nunca pararam de lutar pela preservação. Além de reconstruírem a praça, os dois ainda voltaram a plantar árvores no local. O resultado pode ser visto à medida que as crianças da São Remo começaram a brincar na praça com cada vez mais frequência. “Nós não podemos deixar o legado da tia Eva morrer, sabe?”, diz Camila.


Camila auxiliando a descarregar a grama na praça. Imagem: Giulia Portelinha


Em parceria com a Rede SUP (Rede Saúde Única em Periferias), organizou um projeto de revitalização da praça da amizade. O SUP é um grupo que trabalha para promover a saúde de forma integrada, coordenado pelo professor Oswaldo Baquero. Segundo ele, é importante entender que a saúde não se resume ao tratamento de doenças, a saúde engloba também o ambiente vivenciado por humanos, afetada profundamente pelas iniquidades sociais. “É preciso que a comunidade esteja envolvida, (...) isto que estamos fazendo é um exercício de cuidado”, relata o professor.


A Rede SUP é apoiada por editais da USP, que dão bolsas aos estudantes e permitem comprar materiais, como por exemplo, ferramentas de construção para os canteiros ou para pintar os bancos da praça. Mas alguns recursos são adquiridos de outras maneiras, como a grama, que foi conseguida pela aluna Giovanna Casoni por meio de uma doação da ITOGRASS. O Eraldo e a Camila também vão atrás de muita coisa, foram eles que conseguiram levar água para a praça e estão construindo um bebedouro.


Porém, um grande desafio dos projetos, geralmente, é a busca por mão de obra. “As burocracias da universidade são bastante complexas e não foram pensadas para contratar, por exemplo, moradores da São Remo, que embora competentes, não possuem CNPJ ou familiaridade com licitações.”, relata Raissa Oliveira, voluntária do SUP.


Na quinta-feira (30/06), a fim de receberem a grama, precisaram convocar colaboradores por meio de grupos de WhatsApp, pelo Instagram e pelo bom e velho boca a boca. No primeiro dia, com a missão de descarregar um total de mais de uma tonelada de grama do caminhão para a praça, por fim, um pequeno grupo foi reunido. O veículo chegou no começo da tarde, vindo pelo lado de dentro do muro. Em um momento de tensão, o porteiro precisou verificar se a USP estaria autorizada a permitir aquela movimentação da grama. Após uma ligação, os voluntários receberam consentimento.


Agente de Proteção Ambiental (APA) recebendo as gramas. Imagem: Giulia Portelinha


Os blocos de grama, lentamente, foram atravessando o portão verde. Muitos moradores passavam com olhares curiosos, principalmente as crianças. Elas estavam ansiosas para terem a praça de volta, agora mais cheia de vida.


Paineira, a árvore viva


“O verde precisa de você, você precisa do verde.” Antes da reforma, esta frase estava escrita no muro do portão, ao lado das árvores da dona Eva. Assim como a antiga cuidadora do local, Camila e Eraldo compartilham um amor pelas plantas. “Quando eu vejo cortarem uma árvore, eu quase choro”, fala Camila. Para ela, as plantas podem carregar um significado, como é o caso da Paineira que plantou em homenagem à tia Eva.


Camila e o esposo, Eraldo, gostam de plantar árvores frutíferas. Quem os conhece já sabe dessa paixão compartilhada pelas plantas. Uma conhecida do casal, a Dona Remédio, passou sexta-feira na pracinha para dar a eles uma muda de erva baleeira, popularmente conhecida como “maria milagrosa”. Ela é considerada uma planta anti-inflamatória, antiartrítica, analgésica, tônica e antiulcerogênica. Por isso, é amplamente utilizada na medicina caseira.


Nem sempre, porém, o simbolismo é positivo. Camila ressalta como todas as árvores plantadas perto do muro são de espinhos. Uma outra preocupação é o morro à frente da praça, o qual se encontra devastado. Ao menos, na região da praça, agora, ninguém mais pode mexer, segundo ela.


Paisagem vista da Praça da Amizade. Imagem: Giulia Portelinha


O Izú, juntamente com uma equipe de grafiteiros, pintaram os muros recentemente na reforma da praça. Deixaram lá, além de uma homenagem à tia Eva, uma frase de protesto contra o desmatamento. Eles questionam a hipocrisia na frase “a favela venceu”, sendo que perderam algo de tanto valor, o verde da paisagem.


A praça gramada


Na sexta (01/07), o projeto de revitalização continuou com o plantio da grama. Afofando a terra usando um sancho de duas pontas, Yasmin Alexandre, que morou na São Remo até os 17 anos, coordena as frentes de ação do SUP na São Remo. “Permanecer na universidade vindo do contexto de onde vim é muito difícil, o SUP me proporciona o sentimento de pertencimento que eu nunca tinha sentido desde que ingressei na universidade, além de me dar voz”, conta a estudante.


Apesar da comunidade São Remo estar localizada ao lado da Universidade de São Paulo, o Censo Vizinhança USP indica que apenas 4,5% dos moradores do local possuem ensino superior completo e a grande maioria fora da USP.


Yasmin, à direita, e Giovanna, à esquerda, plantando grama na praça. Imagem: Giulia Portelinha


Para Yasmin, a extensão é um dos tripés da universidade, mas infelizmente não é tão valorizada quanto deveria. “É nosso dever como estudantes de uma universidade pública retornarmos o que aprendemos para o público externo”, explica. Depois de muito esforço, e contando com a maestria de Eraldo na jardinagem, o grupo conclui o serviço. Ao longo dos próximos dias, seria preciso alguém ficar responsável por regar a grama nova, garantindo que ela cresça saudável na praça.


Antes x Depois

Imagem: Giulia Portelinha


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