• Livia Lemos

Novo ENEM: prós e contras aos alunos da periferia

Com o novo modelo do ENEM, o estudante se motivará a focar no que almeja, eliminando o sentimento de incapacidade diante de todos os conteúdos que necessita dominar, uma vez que nas escolas públicas, há a falta de professores e defasagem de matérias

Por Livia Lemos

[Imagem: Canva]

A partir de 2024, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) terá o seu modelo de conteúdos de provas alterado. A mudança foi anunciada no mês de março deste ano pelo Ministério da Educação (MEC), órgão responsável pela aplicação das provas todos os anos.

Segundo o MEC, tal mudança irá acontecer para que o novo ENEM acompanhe a estrutura do Novo Ensino Médio, que entrou em vigor este ano. Agora, tantos os alunos de escolas públicas quanto os de particulares, poderão escolher, além das disciplinas que são obrigatórias no currículo escolar, disciplinas optativas com enfoque para as suas futuras carreiras. E, a partir deste ponto, o ENEM também mudará.

De acordo com o documento elaborado pelos servidores do MEC e entidades de educação associadas, como o Consed, Undime e CNE, o exame será constituído de dois instrumentos: uma prova comum para todos os inscritos e outra com uma combinação optativa pelo estudante. Salvo as provas de língua portuguesa e matemática, e a redação, que serão obrigatórias para todos os inscritos sem exceção, o participante poderá eleger qual combinação optativa irá fazer no segundo dia, podendo escolher entre ciências sociais, ciências humanas, ciências da natureza e linguagens. Essa possibilidade de escolha busca valorizar a futura profissão do estudante. Ademais, as provas também contarão com questões discursivas, nas quais o estudante terá que escrever a resposta.


“Estamos dando peso grande para a produção de escrita do estudante”, explica o secretário da Educação Básica do MEC, Mauro Rabelo.


O que é o Enem?

O Enem é o principal caminho para a entrada de jovens em universidades, sejam públicas ou privadas. Seu início começou em 1998, com o principal objetivo de avaliar o desempenho dos estudantes que já concluíram o ensino médio. Após uma década, somente em 2009, é que as notas do Enem passaram a ser válidas para as entradas de alunos em instituições de ensino superior. A aplicação das provas acontece uma vez por ano, sempre no mês de novembro, para que os vestibulandos de todas as classes sociais possuam tempo de se prepararem e possivelmente começarem a faculdade no ano seguinte. Agora, com as mudanças previstas para 2024, o cenário precisa ser avaliado.


O ENEM como oportunidade de ingresso nas universidades para os pobres

Dados do MEC revelam que, após a taxa de isenção ser concedida aos alunos de baixa renda em 2001, o número de inscritos aumentou significativamente, de 115.575 participantes em 1998, para 1.829.170 inscritos em 2003. Ou seja, se antes somente aqueles os quais possuíam condições de pagar a taxa para realização da prova podiam participar das edições, com a isenção, todos tinham a oportunidade para o mesmo. Esse panorama revela o quanto a importância de dar o suporte a quem não possui as mesmas condições financeiras, permite que todos possam ter o direito a não só fazer o vestibular, como também adentrar em uma universidade.


Vantagens do Novo Enem para os pobres

O ENEM ainda é a principal porta de entrada de estudantes no ensino superior. Com o novo ENEM, o cenário pode mudar para melhor para os alunos da periferia, uma vez que, com a otimização do tempo nos seus estudos, o aluno poderá focar na área que escolheu estudar. Um dos principais pontos levado em consideração na hora do cálculo da média da nota do estudante, é o curso que ele escolheu, distribuindo mais pontos para certas áreas. Isso já acontece com o ENEM atual, onde o participante possui uma média ponderada de acordo com o curso escolhido. Dessa forma, quando sua nota média for calculada, o que será valorizado é a escolha principal do vestibulando. Se o aluno deseja cursar Medicina, por exemplo, e sua principal escolha ter sido Ciências da Natureza, a sua chance de conseguir a vaga pode aumentar.

Embora a concorrência seja grande na disputa de uma vaga e a diferença de ensino entre o rico e o pobre seja discrepante, a possibilidade de escolher uma área específica para estudar, permitirá ao aluno, otimizar o seu tempo, concentrando o foco dos seus estudos nos seus pontos mais fortes e, consequentemente, aumentando suas chances de entrar em uma universidade. Escolhendo a área que desejar cursar, o aluno da periferia irá passar mais tempo estudando aquele conteúdo específico do que se desdobrar para dominar todos os assuntos em um período curto de tempo, visto que, além da falta de suporte para os estudos, o aluno da baixa renda tem um adicional extra, que é a necessidade de trabalhar enquanto deveria apenas estudar.

Outro ponto a ser analisado também é o período de aplicação de provas. Atualmente, o ENEM é aplicado uma vez ao ano. A mudança prevê que o exame seja aplicado a cada quatro meses, já que, com as questões discursivas, mais tempo será demandado para as correções de milhares de provas. Ainda não se sabe se o período de matrículas nas universidades será alterado também, contudo, com a aplicação do exame a cada 4 meses, é possível que mais oportunidades sejam oferecidas para os alunos concorrerem às vagas do ensino superior.


Gargalos da Educação pública brasileira: um obstáculo para o aluno da periferia

A pandemia trouxe muitas dificuldades para todos os estudantes e as próximas edições do ENEM ainda trarão reflexos das marcas que ela provocou em todos os envolvidos, principalmente os de baixa renda. O Censo Escolar de 2021 revelou que apenas 50% dos alunos do ensino médio de escolas públicas dominavam conceitos básicos da língua portuguesa, como leitura e interpretação de texto. E a taxa de aprendizado para matemática ainda é menor. Somente 35% sabiam cálculos básicos como regra de três e geometria.

Além disso, há a falta de professores e defasagem de matérias. Uma pesquisa feita pela Folha de São Paulo, revelou que 32% das escolas estaduais não possuem professores. As disciplinas com maior defasagem são arte e geografia. Ao decorrer dos anos letivos, o estudante já tem um histórico de defasagem de conteúdos que precisam ser estudados e não foram tratados durante a sua trajetória escolar. Chega no último ano do ensino médio e quando vai estudar para o vestibular, ele precisa aprender todos os conteúdos passados. Muitos não dão conta e o resultado é a grande variação de conhecimento nas áreas. A redação é o espelho da distância entre o desempenho dos alunos mais pobres e ricos do país. De acordo com o levantamento feito pelo jornal O Globo, a média da redação do pobre é de 460 contra a média de 640 do rico.

A falta de domínio do aluno de baixa renda em todos os conteúdos gera o sentimento de incapacidade em comparação com os alunos das escolas particular. Se por, um lado, a possibilidade de escolher uma área para realizar o exame trará a chance de entrar no curso tão desejado, por outro, pode acentuar a falta de estudos em conteúdos importantes do ensino.


Novo ENEM: vantagem ou desvantagem?

É incerto se a nova estrutura do Enem trará vantagens ou desvantagens aos alunos da periferia na sua entrada em universidades. Embora ele possa escolher uma área para se aprofundar, ainda terá que encarar a necessidade do domínio de todos conteúdos, uma vez que todas as disciplinas ainda irão estar presentes no Enem. É necessário que o governo trate um dos grandes problemas que até hoje permeia na educação: a falta de estrutura em escolas públicas.

É direito do aluno, como cidadão, ter acesso a educação de qualidade para sua formação. Portanto, não basta apenas mudar o método de aplicação de provas do maior exame do país, mas sim resolver a questão da educação pública brasileira, trazendo não só oportunidades, como também suporte para todos os estudantes.

Apesar de estudantes de baixa renda estarem ocupando seus lugares nas universidades, o número de jovens da periferia que cursam o ensino superior ainda é relativamente baixo. Pesquisas do INEP revelaram que, em 2019, a cada 100 vagas em instituições de ensino superior, 5 vagas eram ocupadas pelos mais pobres. Com as leis de cotas, o número vem aumentando e crescendo dia após dia. Mas, ainda há muito a ser feito, começando dentro das escolas brasileiras.

[Imagem: Canva]



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