• Elaine Alves e Maria Fernanda Barros

Lute como uma mãe solo sem teto

A importância da organização política para a maternidade das mulheres de baixa renda do Movimento Sem Teto do Centro


Por Elaine Alves e Maria Fernanda Barros


Imagem: Maria Fernanda Barros


A maternidade solo é o reflexo de uma sociedade patriarcal que subjuga as mulheres à realização de tarefas que deveriam ser coletivas. Mas, além disso, é uma problemática que se torna ainda mais complexa quando se considera o contexto em que está inserida a esmagadora maioria dessas mães: aquelas em situação de vulnerabilidade social. Por isso, conhecer a realidade das mães solo de baixa renda é essencial para uma compreensão íntegra da militância por emancipação feminina. As mulheres da Ocupação 9 de Julho, conjunto residencial de 122 famílias que se encontra na região central da grande São Paulo, mostram a relevância da luta do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) por moradia e por outros direitos básicos para o estabelecimento de uma experiência maternal mais segura e estável.

Antônia, mais conhecida como Camila, é moradora da 9 de julho há dez anos e possui quatro filhos, os quais criou sozinha e são também residentes da ocupação. Levada até a ocupação por intermédio de uma amiga, Antônia ressalta o quanto o MSTC colaborou para facilitar sua maternidade. “Aqui eu, graças a Deus, sou muito grata ao movimento, porque aqui eles dão essa assistência para a gente. Tem psicólogo, se a gente precisar para conversar, se precisar de algum apoio, tem o movimento que dá esse apoio pra gente. Então a gente não se sente tão só porque tem ele pra dar esse apoio, diferente de quando eu vivia sozinha lá fora, que eu não tinha esse apoio. Então, eu me sinto sozinha, mas ao mesmo tempo eu não me sinto sozinha porque eu tenho esse apoio aqui. Por eu ter esse apoio então deu pra ter a cabeça mais um pouco fixa”, relata Antônia em entrevista para o Central Periférica.

Leonice, também mãe solo e moradora da Ocupação 9 de Julho há dez anos, reafirma a visão de sua companheira Antônia e enfatiza a relevância do movimento para sua trajetória. Segundo ela, a maternidade foi o fator que a motivou a morar na ocupação, mas, ademais, o movimento contribuiu para a expansão de suas perspectivas: “Eu amei por causa dos meus filhos. Eu tenho um filho que ficava só aqui no centro e eu ficava muito preocupada, porque eu morava em um lugar que era muito perigoso à noite, sabe? Por causa de tráfico e essas coisas. Eu tinha medo dele chegar lá de madrugada e acontecer alguma coisa. Eu vim mais por ele, porque daí ele ia ficar comigo e tava pertinho, não precisava ter aquela preocupação. Foi por isso, mas também foi a melhor coisa que eu fiz mesmo. Através daqui eu aprendi muitas coisas, muitas coisas mesmo. No Cambridge tinha uma padaria, eu comecei a trabalhar nessa padaria. Eu fiquei 3 anos nessa padaria. Aqui tem muito curso, aprendi muita coisa. Hoje mesmo, nós somos uma equipe e trabalhamos na cozinha. Então pra mim, tem sido muito gratificante. Eu adorei, não saio daqui por nada”.

Quando questionadas sobre o que as encoraja a permanecer na luta, ambas falam sobre a inspiração que sentem na líder do Movimento Sem Teto do Centro, a baiana Carmen Silva: “A dona Carmen Silva ela passa essa força porque ela tem uma força e através dela eu sinto muito essa força. Tem coisas que eu já fiz na minha vida que eu falava ‘nossa, eu pensei que eu não era capaz’ e hoje eu sou, de tanto ver a luta e de tanto ver ela correndo atrás sem abaixar a cabeça pra ninguém. Então hoje eu me sinto uma mulher forte, uma mãe de família para correr atrás dos direitos dos meus filhos”, expressa Antônia. “A gente se torna mais forte, sabe? Porque a gente sabe como lutar, aí você sabe como lutar. Aí tem a dona Carmen, cito o nome dela porque ela é uma mulher guerreira, sabe? Ela é uma guerreira. Tudo que ela sabe, ela tenta passar para a gente. Ela é uma liderança. Mais do que líder, né? Porque geralmente ela não fala só na liderança, ela fala a experiência de vida que ela já teve e ela passa pra gente aprender”, completa Leonice, expondo não apenas a fascinante militância de Carmen Silva, mas também a relevância da organização política para a restauração de sua força enquanto mulher.


Imagem: Maria Fernanda Barros


Dona Carmen, a mãe solo que veio da Bahia e lutou para conquistar seu espaço na maior cidade da América Latina

Carmen Silva é uma figura política central na luta por moradia digna. Migrou de Santo Estêvão para a capital de São Paulo em busca de oportunidades, porém se viu desolada por políticas públicas que não abrangem a população marginalizada. Devido ao elitismo do Estado, foi forçada a dormir nas ruas e enfrentar uma maternidade extremamente precária, uma vez que é mãe solo de oito filhos e teve que lidar sozinha com a ausência de assistência e falta de recursos financeiros.


Carmen Silva, liderança do MSTC

Imagem: Reprodução/Instagram/Carmen Silva


Em razão do sentimento de desamparo social, Carmen iniciou sua jornada no MSTC, após ter enfrentado a realidade nas ruas e nos albergues. Quando se mudou para a ocupação, conseguiu maior estabilidade em sua vida, além de ter conquistado sua autonomia enquanto mulher e mãe solo por meio da luta política. “Olha, a questão aqui é de deixar as pessoas construírem a sua autonomia, né? Mas não deixando de ter regras, porque o MSTC procura seguir o caminho legalista, compreender quais são as leis do país e dentro dessas leis dar formação às pessoas de que o país é totalmente formal. Esse jeitinho informal que o brasileiro utiliza, para nós não dá. Você pode ir até um certo tempo, depois a formalidade te pega. E se pegar desprevenido, já era. Mas assim, as mães solo têm que ter essa compreensão da formação do MSTC porque elas realmente são elementos de poderes e elas podem construir sua própria autonomia”, conta a militante Carmen Silva em entrevista para o Central Periférica.

A partir da nota de Carmen, vemos que o trabalho de base é crucial para a consolidação dos direitos que envolvem a maternidade solo. Atualmente, a líder do MSTC diz não ter mais a necessidade de morar na ocupação, embora atue amplamente no movimento auxiliando as que precisam de uma residência fixa e digna para iniciar sua busca por autonomia.


Imagem: Maria Fernanda Barros


Estigmatização do movimento

O trabalho político do MSTC segue o caminho legalista e se mostra fundamental para a coletivização das tarefas domésticas e para a qualidade de vida das mães solo de origem periférica, mas as mulheres do movimento de luta por teto ainda são marginalizadas pela sociedade e sofrem com estigmatizações. Em seu relato, Antônia manifesta: “Por a gente morar assim, eles acham que a gente é marginal, que a gente não trabalha, mas a gente leva uma vida como qualquer outra pessoa. A gente trabalha, a gente tem filhos, nossos filhos vão pra escola e tem gente que não vê por esse lado, né? Tem gente que fala assim ‘ah, porque mora na ocupação são vagabundos, são pessoas atoas’ e nós não somos, somos trabalhadoras. A gente tenta viver o melhor possível e mostrar pra sociedade que a gente não é o que eles pensam”. E ainda acrescenta uma experiência opressora que viveu por ser uma mulher moradora de ocupação: “Eu já me senti oprimida uma vez que eu fui pro emprego e não fiquei empregada porque eu morava em uma ocupação. Então eles não viram em nenhum momento se eu tinha condição ou capacidade de ficar naquele setor, eles preferiram me mandar embora porque eu morava numa ocupação. Então assim, eu me senti mal porque a gente mora numa ocupação, não é porque a gente tem carros, tem casa, a gente mora porque a gente precisa e a gente precisa desse apoio. Porque se a gente não tivesse esse apoio, como ia ser?”.

Leonice também relata ter presenciado cenas discriminatórias contra o movimento, e diz acreditar ser um fenômeno passado de geração para geração. “Porque tem pessoas que falam que é perigoso, que não sei o quê. Muitas pessoas que você encontra que não têm essa visão de como é uma ocupação, eles falam pra você que é perigoso, mas não é nada. É uma coisa maravilhosa, aqui todo mundo é família, aqui só mora família, trabalhador, que nem todo mundo, igual qualquer um. E eu amo morar aqui. Tem escola que vem aqui, e nesses dias mesmo veio fazer uma visita na horta. Aí a avó do menino trouxe e disse que assim que saísse daqui era pra ligar pra ela, sabe? Aquele medo, e o menino também tava meio desconfiado, olhava pra gente meio assustado. Mas isso aí já vem do avô, a avó já falou antes dele entrar ‘cuidado’, e o menino assustado. E eu falei ‘meu Deus do céu, se ele soubesse, não ia querer mais sair daqui’ porque todo mundo aqui é família e trabalhador”, diz a moradora.


Entrada da Horta Comunitária da Ocupação 9 de Julho

Imagem: Maria Fernanda Barros


Embora na visão da sociedade predomine a associação de ocupação com baderna ou criminalidade, a Ocupação 9 de Julho, visitada pelas repórteres do Central Periférica, Elaine Alves e Maria Fernanda Barros, é um centro político e cultural que aprimora as trabalhadoras ativas que existem dentro de cada mulher mãe solo sem teto. Além de ser um ambiente residencial e de encontro político, a 9 de Julho realiza almoços de domingo abertos ao público, a partir dos alimentos colhidos na horta da ocupação, e abre o espaço para espetáculos teatrais, apresentações musicais e vendas de roupas e livros. Está localizada na Rua Álvaro de Carvalho, 427, no bairro Bela Vista.


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