• Danilo Roberto Silva Queiroz

Em anos de eleição, cozinhas solidárias lembram que comer também é um ato político

Cozinhas solidárias se reuniram no centro de São Paulo e teve a presença de Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST


Por Danilo Queiroz (daniloqueiroz@usp.br)


A construção do movimento é feita para integrar todos os corpos

em busca das conquistas de uma luta popular e de um espaço em comum

[Imagem: Reprodução/Danilo Queiroz]


O centro de São Paulo recebeu um encontro de cozinhas solidárias promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) no dia 9 de julho. O objetivo foi arrecadar fundos por meio de um arraiá junino com a venda de comidas típicas produzidas pelas cozinheiras do projeto. O dinheiro será revertido para a abertura de mais espaços, sendo em breve uma cozinha no bairro Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo e também na manutenção das 31 cozinhas espalhadas pelo Brasil.


No dia também houve rodas de conversas e muita música a fim de despertar nos visitantes a utilização dos nossos corpos como ferramenta política, conta os organizadores do evento. Uma das presenças mais esperadas da noite foi do professor Guilherme Boulos, coordenador do MTST, movimento que atua por meio da luta popular oferecendo assistência social, habitacional e também psicológica. Boulos é pré-candidato a deputado federal pelo PSOL.


"Comer é um ato político” Guilherme Boulos

Política na cozinha


As cozinhas solidárias foram desenvolvidas em 2017 e são um dos coletivos do MTST. Suas atuações ficaram mais conhecidas nesses últimos anos em virtude da pandemia de Covid-19 que acentuou ainda mais no Brasil os índices de desigualdade política, econômica e também alimentar.


Sendo assim, há mais de dois anos a procura das pessoas nos espaços só aumenta e o número de marmitas preparadas cresce proporcionalmente. Já as doações a cada dia tem diminuído pouco a pouco.


Recorrentemente cresce o número de pessoas morrendo por cozinhar de forma inadequada no nosso país, que ao mesmo tempo que é líder em exportação de insumos alimentares volta também ao mapa da fome esse ano, em 2022. E a necessidade de haver cozinhas coletivas cada vez mais necessárias.


Omissão estatal e atuação social

Hoje presentes em quase todas as regiões do país, possuindo um total de 32 cozinhas, a dificuldade de avançar o projeto ainda é devido a falta de apoio governamental e os gastos com a manutenção dos serviços prestados.


Em entrevista à Central Periférica, Ana Paula, coordenadora nacional das cozinhas solidárias no Brasil, afirma que as cozinhas nesse sentido refletem uma micropolítica no país. Pois, mesmo que trabalhem para garantir segurança alimentar, sobretudo as populações periféricas, as mais afetadas pela desigualdade social, é preciso olhar que o que elas fazem ainda é muito pouco para a demanda que o país carece.


“Se os governos quisessem matar a fome seria só abrir cozinhas comunitárias em todos os lugares. Eles preferem invisibilizar porque é um projeto”, conta Ana

Ana Paula, coordenadora nacional das cozinhas solidárias no Brasil acredita que a pré-candidatura a deputado federal de Boulos e a pré-candidatura estadual de Ediane Maria serão passos importantes na construção de políticas efetivas de uma sociedade mais participativa e representativa das reais condições dos sujeitos periféricos

[Imagem: Reprodução/Danilo Queiroz]


Assim, embora que impactem o bairro onde seus espaços estejam instalados oferecendo comida e assistência social de qualidade, falta fazer muito mais. São mais de 33 milhões de pessoas sem ter o que comer. E em breve 33 cozinhas solidárias espalhadas após a abertura de mais uma na Zona Sul de São Paulo. Ou seja, falta muito para reverter esse momento atual.


Uma estratégia foi desenvolver uma ferramenta digital para que as doações pudessem ser ampliadas. Além de eventos e outras ações para reverter o dinheiro na manutenção do projeto, sobretudo na assistência distribuída àqueles que carecem de algo que vai além de comida no prato. Afinal, quem tem fome, tem pressa.


E as doações não são suficientes. Como conta Ariana Santana, uma das cozinheiras da ocupação do Montanhão, em São Bernardo do Campo, já houveram dias que a cozinha não conseguiu abrir as portas. Falta material para preparar as refeições distribuídas em marmitas e a única alternativa é essa. “Dói não ter o que preparar e ver pessoas chorando pedindo um prato de comida por ter passado dias sem”, disse.


Algumas das refeições preparadas são soja, linguiça, frango, macarronada. A tentativa é tentar diversificar e oferecer o máximo de qualidade e dignidade possível àqueles que comem. Ariana conta que é uma atitude de humanidade e respeito. A procura também vem aumentando e hoje é possível ver até pessoas que moram há horas de distância da unidade à procura de algo não só para comer. Ao se alimentarem, as conversas tomam conta do espaço e o diálogo e a atenção se tornam ferramentas também para se alimentar de política.


Comer é um ato de entrega e cuidado em respeito ao outro

[Imagem: Reprodução/Danilo Queiroz]


Política organizada


Longe de sair abrindo cozinhas por aí é preciso compreender antes que há um caráter organizacional por trás delas. Não são apenas marmitas distribuídas diariamente. Muitas vezes as pessoas vão lá - estando ou não à margem da miséria - porque sentem fome de serem ouvidas, afirmam todas as cozinheiras entrevistadas. E as cozinhas servem para isso: oferecer assistência a todos que desejam.


Ana também conta que as cozinhas devem vir num acompanhamento de uma política de emprego e distribuição de renda. Assim, os gastos de manutenção das casas nas periferias são redistribuídos seja pela aquisição de uma moradia própria ou pelo acesso a um alimento nutritivo e o dinheiro sendo investido em outra coisa. As cozinhas geram não só refeições, mas também emprego para aqueles que enxergam nesse trabalho uma oportunidade de mudar não só a sua vidas, mas a de todo mundo por meio da alimentação.


Nos espaços as cozinheiras podem ser tanto voluntárias quanto contratadas, e sendo assim é preciso todo um desenvolvimento conjunto para o estoque dos produtos a serem preparados, os espaços e as refeições ofertadas. A cooperação, então, começa desde que a ideia em construir mais uma cozinha se estabelece e o sistema começa a partir de então a engrenar.


As cozinhas tem como um dos seus princípios a cooperação e a união

comemorando cada unidade estabelecida e cada refeição preparada

[Imagem: Reprodução/Danilo Queiroz]


O MTST para além das cozinhas também desenvolvem reforço escolar para as crianças, aulas de esportes, cinema ao ar-livre e hoje aumentando o número de hortas comunitárias nas unidades. A fim de oferecer nas comunidades periféricas o direito que as pessoas têm por serem cidadãs.


Quinzenalmente o movimento também oferece reuniões para mobilizar as populações periféricas através de rodas de conversas estimulando os moradores a lutarem por seus direitos como a importância de possuir uma certidão de nascimento, por exemplo. Então, por meio de uma política construída com base no diálogo as pessoas começam a serem identificadas e saindo daquilo que antes seria somente um dado estatístico. E é preciso enxergar, de fato, a classe trabalhadora.


Quando sua cozinha torna-se a de todo mundo


Além desse trabalho, o MTST tornou-se conhecido por lutar por uma moradia digna a todos. Além de ter um teto, é preciso ter dignidade para morar. E é assim que o movimento atua por meio de uma luta organizada ao garantir uma cidade que seja digna para todos. A ocupação surge com famílias organizadas para lutar por moradia, mas disseminando sempre que o entendimento de moradia é importante, mas que só ela não vai trazer a dignidade.


Uma dessas famílias que conquistaram o direito de ter um lar digno é Jane Santos, moradora na ocupação da Palestina, no bairro de Jardim Ângela. Grata por tudo que conquistou por meio da luta popular, Jane foi selecionada para ser mais uma das cozinheiras da nova unidade que está para abrir no mesmo local que ela reside. Ela cedeu a cozinha da sua casa a fim de torná-la solidária e de todo mundo que necessite de uma alimentação nutritiva e gratuita.


Jane Santos, cozinheira que tornou sua cozinha um espaço para todos

[Imagem: Reprodução/Danilo Queiroz]


Ela conta que o MTST faz bem mais do que o governo para garantir uma qualidade de vida que vai além da segurança alimentar. Hoje, a unidade que está em etapa final de construção já possui parceria com nutricionistas das Unidades Básicas da Região (UBS) do bairro. Inicialmente serão distribuídas 50 marmitas oferecendo o almoço diário, mas ela pretende expandir as refeições, mas para isso precisa do apoio das doações.


E será um prazer imenso ajudar onde vive. Diferentemente de cozinhar apenas para sua família, tornar a sua cozinha um espaço para todos ajudará no fortalecimento que a luta popular precisa continuar.


Cozinhar é alimento para a alma


Já na Zona Leste, Rosilene Olinda é cozinheira no Jardim Iguatemi e encontrou na cozinha um espaço de acolhimento e resistência. Após relatar alguns casos de racismo no seu antigo trabalho, ela conta a Central Periférica que cozinhar no projeto foi um ponto de esperança após alguns meses em depressão.


Rosilene Olinda, cozinheira responsável no Jardim Iguatemi e que tem despertado na família e na comunidade a necessidade de se integrar à luta popular

[Imagem: Reprodução/Danilo Queiroz]


Ela também menciona o impacto social que o movimento tem realizado na Sé, região central de São Paulo, distribuindo mais de 500 marmitas por refeição. Na unidade que ela faz parte há rodas de conversa com gestantes, reforços e atividades para as crianças para poder proporcionar também na comunidade lazer e cultura, além das mais de 150 marmitas distribuídas. Isso parte de entender que nas comunidades é preciso reafirmar o direito em ser cidadão, e sobretudo sujeito periférico.


Então, desde cedo todos aprendem que é preciso lutar por seus direitos ainda que seja criança. Kauan Maurício,16, é um dos três filhos de Rose, como é mais conhecido na comunidade, e já participa das reuniões do MTST para que possa ocupar uma moradia.


Política é algo que começa a ser construída assim que nascemos e é preciso ensinar a todos que com consciência política popular é possível conquistar os nossos direitos, disse. E somente se alimentando é que poderá nutrir ainda mais nas comunidades periféricas o desejo e a força de lutar por aquilo que é de direito: uma vida de qualidade.


Assim como os alimentos, fazer política necessita de preparos


O pré-candidato a deputado federal de São Paulo também afirma que o que vem ocorrendo no Brasil hoje faz parte do projeto político adotado por Jair Bolsonaro e sua equipe no Palácio do Planalto. Logo, há pouco meses das eleições, o atual presidente vem tentando resolver as marcas deixadas pela pandemia por meio do auxílio-Brasil, uma ajuda de custo de R$600 destinadas à população de baixa renda.


Contudo, o valor é insuficiente e tampouco consegue acabar com a fome no país. A fome é um projeto e poderia ser combatida com políticas públicas e programas alimentares eficazes, não com auxílios emergenciais, que é o que vem ocorrendo nos últimos meses da gestão presidencial.


Boulos juntamente com Ediane Maria, ambos coordenadores no MTST que enxergam na alimentação uma ferramenta política. Na imagem acima os dois estiveram presentes na reinauguração da cozinha de Tia Cida, no Embu das Artes, após a unidade ter sido destruída pelas chuvas.

[Imagem: Reprodução/Danilo Queiroz]


Assim, com o aumento dos preços dos alimentos e o avanço desenfreado do desemprego, as cozinhas solidárias se tornam uma ferramenta imprescindível no combate à miséria extrema. Mas não só isso, elas também demonstram que comer é um ato político e se alimentar vai além de matar o vazio do estômago.


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