• Danielle Alvarenga

Desigualdade na educação brasileira I: insegurança na volta às aulas

Falta de estrutura e investimentos nas escolas públicas dificultam o retorno às aulas presenciais de forma segura.


Por Dani Alvarenga


*Foto por André Carvalho/Smed/FotosPublicas

O governo de São Paulo anunciou, em outubro, o retorno às aulas presenciais de forma facultativa e com rodízio de alunos, de forma a manter o distanciamento social. Já em novembro, o retorno tornou-se obrigatório e com ocupação de 100% das salas de aula, sem os protocolos de espaçamento físico.


De acordo com Marcele Frossard, assessora de políticas sociais da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, as medidas tomadas não foram suficientes para garantir a segurança dos estudantes e funcionários na rede pública. “O retorno foi realizado sem consulta à comunidade escolar e sem investimento devido para garantir infraestrutura que garanta segurança das escolas para evitar aumento de contaminações”, afirmou Frossard.


A realidade das instituições privadas foi distinta. Apesar de não existir um regulamento específico para os colégios particulares, as adaptações realizadas nessas escolas foram mais efetivas para impedir o aumento do contágio pelo coronavírus. A professora Silvia Gil, que trabalha na Escola Estadual Sidronia Nunes Pires, localizada na grande São Paulo, e que possui vasta experiência na rede privada, compara os ambientes dos professores em cada instituição: “A escola da rede privada tem mais banheiros, [que são] limpos com maior frequência, ambiente mais arejado com janelas amplas, e torneiras disponíveis e funcionando. As salas da rede privada comportam 20 alunos com distanciamento e da rede pública somente com revezamento”, revela Gil.


Na escola da rede particular da professora Luana Terra Rangel, em São Paulo, além das aplicações das medidas obrigatórias, foi criado um comitê entre pais e professores, para cuidar dos protocolos sobre a Covid-19. Além disso, a instituição passou a ser acompanhada por uma infectologista. “Outra medida muito importante foram os questionários de saúde. Todo dia, o professor e a criança tinham que se autodeclararem [sua situação de saúde]. Essa medida nos manteve bem seguros”, relata Rangel. No entanto, a experiência da professora Silvia Gil ressalta as diferenças entre o ensino público e privado. “No início, com revezamento para [manter] distanciamento, foi disponibilizado álcool em gel e líquido, [houve] higienização com maior frequência, obrigatoriedade de máscara. Foi fornecido EPI para os professores - de péssima qualidade, máscara mal costurada-, face shields e [era realizada] aferição de temperatura”, afirma a educadora.



Volta as aulas presenciais [Imagem: Reprodução / Rovena Rosa/Agência Brasil]

Mesmo com as dificuldades apresentadas, a volta às aulas presenciais se revelou necessária. De acordo com o estudo "Cenário da Exclusão Escolar no Brasil - um Alerta sobre os Impactos da Pandemia da Covid-19 na Educação", o número de crianças e adolescentes sem acesso ao ensino subiu de 1,1 milhão, em 2019, para 5,1 milhões em 2020. Embora as instituições públicas não possuam a mesma estrutura que as particulares para garantir que não haja contaminações pelo coronavírus, a professora Gil revela a importância do ensino gratuito. “A diferença é que a escola privada existe e cresce, encontrou terreno fértil para se desenvolver em nosso país, oferece boa qualidade de ensino porque é para poucos. Na escola pública, também tem aulas e professores excelentes, mas que para manterem suas necessidades básicas se submetem a duplas jornadas acumulando dois empregos. A rede privada geralmente incentiva o vestibular e vende aprovações. As condições materiais são melhores”. A educadora, porém, ressaltou a apreensão pelo retorno presencial. “O retorno presencial foi um misto de sentimentos, perceber o quanto a escola é necessária para a faixa etária dos nossos alunos e estar com ela fechada foi muito dolorido. Voltar numa pandemia foi dolorido, e ainda tememos pela segurança sanitária. Com certeza a vacinação nos deu esperança e energia, porém a Pandemia ainda nos trás incertezas e imprevisibilidade”, afirmou Gil.


Além disso, apenas em São Paulo, mais de 300 mil alunos abandonaram seus estudos nas escolas públicas estaduais e municipais. Contudo Marcele Frossard, da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, ressalta que o ensino à distância não foi a principal razão para a evasão escolar registrada. “A falta de políticas públicas coordenadas nas diferentes esferas governamentais, de investimento e de clareza e transparência nesses processos ao longo da pandemia foram os principais fatores que contribuíram para esta evasão, bem como a falta de políticas sociais, como a distribuição da alimentação escolar conforme apresentado por estudo do Observatório da Alimentação Escolar, para garantir que os estudantes se mantivessem vinculados às escolas. O que poderia ser feito era reunir esforços para criar possibilidades de manter esses alunos estudando e infelizmente não aconteceu”, explicou a assessora.


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