• Ana Mércia Brandão, Laura Pereira Lima e Otávio Aguiar

Virada Cultural é marcada pela presença da periferia, mas ainda deixa a desejar

A 'Virada do Pertencimento', como foi denominada a edição de 2022, contou com diversos artistas periféricos, mas teve seu acesso limitado por burocracias


Por: Ana Mércia Brandão, Laura Pereira Lima e Otávio Aguiar


O público da Virada assistia ao show da cantora Ana Cañas no palco Parada Inglesa. [Imagem: Laura Pereira Lima/Arquivo pessoal]


As ruas de São Paulo se tornaram palco de mais uma edição da Virada Cultural, iniciativa que promove, anualmente, eventos culturais e gratuitos por toda a cidade. Neste ano, ela ocorreu em 28 e 29 de maio. A Secretária de Cultura de São Paulo, Aline Torres, mulher negra e periférica, propôs, para esta nova edição, medidas visando a inclusão da periferia no evento, como a descentralização dos palcos e a presença acentuada de artistas periféricos. Segundo a secretária, "a mudança se deu seguindo o tom da gestão do prefeito Ricardo Nunes de fornecer políticas públicas para quem de fato precisa, ou seja, para a periferia". Contudo, a esses artistas foram reservados apenas os palcos menores, com menor visibilidade, e diversas questões de ordem burocrática limitaram a presença da periferia no evento.


Abertura

A abertura oficial do festival foi realizada no palco da Freguesia do Ó, na Avenida Miguel Conejo. Em meio a um clima geral de satisfação com a localização escolhida, podia-se ouvir clamores como “Mó ‘da hora’, bagulho aqui na quebrada!”. Foram montados dois palcos e havia um intérprete de libras presente a todo momento. Representando a prefeitura e a organização da festividade, a secretária Aline Torres compareceu à abertura, acompanhada de Danilo Miranda, diretor do Sesc no estado de SP. No palco da Freguesia do Ó, Aline Torres reafirmou seu compromisso com a cultura periférica e Miranda anunciou duas novas unidades do Sesc: Casa Verde e Pirituba.

Pôster oficial da Virada Cultural 2022 [Imagem: Divulgação/Prefeitura de São Paulo]


O maestro João Carlos Martins deu início ao evento, acompanhado da bateria da Escola de Samba Vai-Vai. O conjunto apresentou releituras de grandes peças da música clássica, como o Primeiro Movimento da Quinta Sinfonia de Beethoven, além de algumas canções incomuns para o repertório de sua orquestra, como Maluco Beleza de Raul Seixas — momento em que o maestro entregou a batuta e sentou-se ao piano — e Codinome Beija-Flor de Cazuza. O show do cantor Péricles reuniu uma multidão de pessoas que, em estado de catarse, cantaram todas as músicas a plenos pulmões; o clima de alegria que pairava sobre o local era característico de um público que finalmente podia dizer que se sentia incluído pelo Estado: o público da periferia.

No entanto, apesar do evento ser gratuito, os presentes se depararam com a venda de produtos a preços excessivos, o que tornava o consumo nos ambientes da Virada inviável para parte do público.

Descentralização

Diferente das edições anteriores, cujos principais espetáculos eram sediados no centro de São Paulo, a Virada Cultural de 2022 se propôs a descentralizar as atrações, abrangendo também as regiões periféricas. O centro da cidade não foi o protagonista da vez. Atividades e artistas também foram recebidos em São Miguel Paulista, Parada Inglesa, Campo Limpo, M'Boi Mirim, Itaquera, Butantã e Freguesia do Ó, que contaram com shows de grande porte como o de Glória Groove (Itaquera) e Jorge Aragão (Parada Inglesa). Michelle Serra, líder do Quebrada Viva, grupo que participou da Virada, sentiu falta da presença periférica nos grandes palcos: "vimos o esforço da Secretaria de Cultura em levar essas pessoas pras Casas de Cultura, que são polos menores, mas na verdade esses artistas tinham que estar nos palcos grandes, junto com os artistas grandes".


Projeções do Quebrada Viva, grupo que faz uso de projeções para impulsionar o trabalho de artistas periféricos. [Imagem: Laura Pereira Lima/Arquivo pessoal]


Para Paula Silva, policial aposentada, a descentralização foi muito positiva. "Eu moro aqui perto, dá até pra vir a pé. Então facilita bastante, incentiva mais." A policial aposentada, que assistia à Virada Cultural no palco da Parada Inglesa, ainda ressalta que a segurança do evento aumentou em comparação com os anos anteriores. “Lá no Centro eu não gostei, achei mais violento, aqui eu acho que está bem tranquilo”. Ela também alimenta esperanças de que a descentralização se mantenha nas próximas edições do evento.

O jovem Mateus Cardoso Novaes, que assistia ao evento na Parada Inglesa, ressalta que a descentralização, apesar de positiva, trouxe problemas logísticos. "Acabou um show que não conseguimos ver e nós queríamos ver outro, só que até [a gente] chegar lá já teria acabado." Mariana de Paula, que o acompanhava, concorda: “Quando a virada é no centro, tudo é perto.”


Do palco da Parada Inglesa, os espectadores podiam acompanhar o movimento do metrô. [Imagem: Ana Mércia Brandão/Arquivo pessoal]


Burocracias

Os artistas da Virada Cultural foram selecionados a partir de um edital aberto, disponibilizado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, no qual os candidatos deveriam enviar suas propostas artísticas, seguidas de uma documentação específica. Para Michelle Serra, essas questões burocráticas ameaçam a inclusão: "os artistas pequenos, que recebem cachês de 800, mil reais, não conseguem viver da arte. E não conseguem porque é muita burocracia; a contratação é burocracia. Não existem políticas públicas efetivas com um olhar humanizado para esses artistas”.

A documentação exigida incluía um contrato de exclusividade liberado em cartório específico, que poderia gerar um gasto pessoal de até 200 reais, além de, no mínimo, três notas fiscais provenientes de cachês prévios. “A gente viu que muitos artistas saíram da programação porque não tinham dinheiro, por exemplo, para conseguir ter esse contrato de exclusividade, e essas notas fiscais.”, conta Michelle. A líder do Quebrada Viva também acrescenta que muitos artistas pequenos, que se apresentam em bares ou saraus, não têm como apresentar essas notas fiscais provenientes de cachês, pois não tem contratação oficializada.

Para Yan Guilherme, que atuou como produtor local para o Quebrada Viva no palco Itaquera, a Virada foi inclusiva ao levar artistas grandes para o palco das periferias: “Eu sou um frequentador da Virada desde 2016 e uma coisa que eu reparei nessa Virada de 2022 é que não houve tanta inclusão dos artistas [periféricos], mas gostei que levaram os artistas grandes para tocarem na periferia, como teve no palco Itaquera a Gloria Groove, no palco de São Miguel, Barões da Pisadinha, Hariel”. No entanto, ele afirma que a Virada falhou nas questões de acesso aos artistas independentes da periferia. “Esses artistas estão iniciando, são aqui de São Paulo, precisam de uma oportunidade e a Virada Cultural poderia ser uma grande oportunidade para eles ganharem visibilidade e realmente iniciarem seus trabalhos profissionalmente”, reflete.

Sobre o assunto, Michelle resume bem: “O que me choca ainda é a mentalidade de que ‘a gente precisa levar a cultura para a periferia’. Não é levar, a gente precisa do dinheiro na periferia, na mão dos produtores, dos artistas, para que a gente consiga fomentar ainda mais a arte. A gente sabe que a arte, a cultura, a educação, salvam essas vidas”.



51 visualizações0 comentário