• Julia Magalhães e Mariana Zancanelli

Respeita a nossa história: sons da periferia que conquistaram o mundo

Como o samba, o rap e o funk carioca passaram de gêneros musicais desprezados no Brasil para músicas brasileiras valorizadas fora do país


Por Julia Magalhães e Mariana Zancanelli


Imagem da capa - Julia Magalhães


“O funk hoje é a minha vida. É através dele que sustento minha família e ajudo no sustento de toda a minha equipe” - Mc Du Black


Segundo um levantamento feito pelo Deltafolha, funk é o gênero musical brasileiro mais ouvido no exterior. A cantora Anitta, que começou a sua carreira musical a partir do funk carioca, cantou recentemente em um dos maiores festivais de música do mundo, o Coachella. Dessa forma, é visível que esse ritmo musical vem ganhando cada vez mais espaço na indústria da música, nacional e internacional.


No entanto, esse estilo de música é também um dos mais desprezados do país. O funk carioca surgiu na periferia, e assim como o rap e o samba, sofre sendo um dos gêneros musicais mais criticados do Brasil. A semelhança mais evidente entre os três ritmos é a sua origem. Segundo Bruno Ramos, produtor cultural e um dos fundadores da Liga do Funk, em entrevista ao Portal Aprendiz, “o funk sofre preconceito porque é um movimento de periferia e aborda questões que as pessoas não estão acostumadas a lidar. Além disso, fala dessas questões de uma maneira muito aberta, ao invés de usar os jogos de palavras típicos das músicas produzidas durante a ditadura, por exemplo”.


A importância desses gêneros musicais

Esses três estilos apresentam um significado muito grande para a periferia. É possível perceber pelos caminhos que eles abrem para a população periférica e pelo avanço deles para além das comunidades, uma vez que são visíveis em diversas partes do Brasil e do mundo.


O samba surgiu no século XIX como uma mistura dos batuques africanos com a polca e o maxixe. Ele acontece como uma maneira de diversão e aumenta a união da população que começou a ocupar os primeiros morros do Rio de Janeiro. Fora considerado ilegal em 1920 e sua continuidade mesmo após esse período demonstra o caráter de resistência da periferia diante da censura.


[Imagem: Arquivo nacional/Rádio Senado]


Já o funk carioca nasceu na década de 1980. As letras das suas primeiras músicas foram marcadas por comentários que diziam respeito sobre o cotidiano das comunidades ou dos subúrbios do Rio de Janeiro. Entretanto, na década de 1990, com o aumento da violência urbana e a invasão da periferia pela polícia, as canções desse gênero começaram a denunciar essas situações, além de pedirem por direitos civis. Dessa maneira, o funk carioca também funciona como uma forma de resiliência dessas pessoas marginalizadas e discriminadas.


O rap surgiu em 1986 nas periferias de São Paulo. Desde o início, suas músicas denunciavam as políticas do Estado para com as periferias e, assim como o funk, denunciavam cotidianos problemáticos dentro delas. Por conta de suas letras, o gênero foi fortemente criticado. Esse estilo musical também servia como uma maneira de resistência dessa população que ficava às margens do restante da sociedade.


Nesse aspecto, esses três gêneros musicais narram as vivências dessa população periférica e denunciam o descaso do governo com seus moradores. Para o “funkeiro”, Mc Du Black, responsável pelas músicas “Gaiola é o troco” e “50 tons”, a importância do samba, do rap e do funk é uma questão de esperança. “A população periférica já é tão sofredora. Tem uma batalha diária pela sobrevivência. Eu vejo a música como válvula de escape para essa população tão discriminada. Além disso, a música pode se tornar referência para crianças e jovens de comunidades, pois acabamos virando referência destas crianças“, afirma o cantor.


Após esse registro com as crianças, Mc Du Black afirma que se ele ainda faz o que ama, é porque elas amam o que ele faz. [Imagem: Reprodução/Instagram]


A difusão mundial do rap: Emicida

Em 2020, o rapper Emicida teve um documentário, AmarElo - É tudo para ontem, produzido pela maior rede de streaming do mundo, a Netflix. Nesta obra, o cantor e compositor contextualiza acontecimentos importantes que têm relação com o pensamento negro no Brasil, como por exemplo o fato do país ter sido o último das américas a abolir a escravidão, contando um lado da história brasileira que não é visível na maioria dos livros didáticos.

O artista chegou a ser indicado, pelo documentário, ao Emmy Internacional, premiação feita pela Academia Internacional das Artes & Ciências Televisivas aos melhores programas de televisão elaborados fora dos Estados Unidos. Dessa forma, a produção brasileira, que trata de temas desvalorizados por boa parte da população nacional, foi considerada uma das melhores feitas naquele ano. Assim, fica claro que os cidadãos do Brasil apresentam um pré-conceito em relação a esses gêneros de origem periférica, pois, ainda que ocupem lugares de privilégio internacional, são desprezados.


[Imagem: Reprodução/Netflix]


A difusão mundial do funk carioca: Anitta

A cantora Anitta, no dia 25 de março de 2022, foi a primeira brasileira a chegar no primeiro lugar das músicas mais ouvidas do mundo com seu single Envolver no Spotify, maior plataforma de streaming de música. Mesmo sendo uma conquista inédita, foi diminuída por diversos brasileiros, inclusive pelo jornal Folha de S. Paulo, que afirmou em uma reportagem que a cantora e sua música não eram tão globais assim.


De acordo com Mc Du Black, essa desvalorização ocorre pois as pessoas discriminam o movimento do funk sem conhecê-lo. Em 2017, aliás, surgiu uma sugestão de lei para criminalizar o funk, que atingiu 20 mil assinaturas. Esse grande número de apoiadores demonstra o preconceito da população com esse ritmo musical, a ponto de desejar criminalizá-lo.


Anitta já afirmou que faria o funk ser valorizado no Brasil, no entanto, ela fez mais do que isso. “Um dia eu prometi que ia fazer o funk carioca ser respeitado no nosso país, lembram? Pois é, minha paixão era tão grande que se expandiu pro mundo todo! Nunca desistam dos sonhos de vocês!”, afirma a carioca na rede social Twitter. Essas conquistas internacionais levaram a Netflix a querer registrar o dia a dia da cantora nas séries documentais “Anitta: Made in Honório” e “Vai Anitta”. Assim, fica claro como o funk carioca se expande cada vez mais pelo mundo


Em sua performance no Coachella, Anitta fez questão de apresentar o Brasil para o mundo por meio das cores, dos figurinos, dos cenários e, é claro, do funk. [Imagem: Reprodução/Youtube]


A difusão mundial do samba: Carnaval

Segundo o historiador Luiz Antonio Simas, em entrevista ao Portal EBC, o surgimento das primeiras escolas de samba do Rio de Janeiro, na década de 1920, coincidiu com o período de intensificação da luta dos negros por aceitação na sociedade urbana. Aos poucos, o ritmo foi se espalhando para além dos bairros periféricos e alcançando as regiões mais elitistas da cidade. Um século depois, nota-se que o samba ultrapassou até mesmo as fronteiras nacionais, atraindo milhares de pessoas para as comemorações do carnaval. Em 2020, por exemplo, cerca de 483 mil estrangeiros vieram fazer parte da folia do Rio de Janeiro, segundo balanço da Riotur.


Para o professor Felipe Ferreira, coordenador do Centro de Referência do Carnaval da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), a associação do Brasil com o carnaval é extremamente honrosa e produtiva, conforme disse em entrevista à Revista da Reputação. “Poucos países possuem uma identidade tão positiva, ligada a conceitos de festa, alegria, música e comemoração. Tais conceitos não devem ser confundidos com falta de seriedade ou incapacidade produtiva. Ao contrário, o carnaval, seja ele das escolas de samba, dos trios elétricos ou dos blocos de rua, deve ser entendido como uma forma particular de trabalho, associado à alegria e ao prazer”. Diante disso, é incontestável a importância do samba para a popularização do país no mundo e perpetuação da cultura brasileira.


[Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil]


As realidades contadas nas músicas


Por fim, é conveniente analisar algumas músicas que evidenciam o caráter crítico e de resistência desses gêneros.


Em “Mágico de Oz”, os Racionais Mc’s denunciam, entre outras coisas, a falta de políticas efetivas contra as drogas, a corrupção, a degradação da infância e a violência policial, como se nota nos seguintes trechos:

“O consumo aumenta a cada hora

Pra aquecer ou pra esquecer

Viciar, deve ser pra se adormecer

Pra sonhar, viajar, na paranoia, na escuridão

(...)

A polícia passou e fez o seu papel

Dinheiro na mão, corrupção a luz do céu

(...)

Moleque novo que não passa dos 12

Já viu, viveu, mais que muito homem de hoje

Vira a esquina e para em frente a uma vitrine

Se vê, se imagina na vida do crime

Dizem que quem quer segue o caminho certo

Ele [moleque novo] se espelha em quem tá mais perto

Pelo reflexo do vidro ele vê

Seu sonho no chão se retorcer

(...)

A polícia sempre dá o mau exemplo

Lava a minha rua de sangue, leva o ódio pra dentro

Pra dentro de cada canto da cidade

Pra cima dos quatro extremos da simplicidade”


No “Rap da felicidade”, de Cidinho e Doca, ainda que o ritmo seja diferente, mais animado e mais contagiante, as críticas permanecem - seja contra a violência, a falta de políticas habitacionais de qualidade ou ainda o descaso estatal. Na composição, os autores fazem simples pedidos: ser feliz, andar tranquilamente na favela onde nasceram, poder se orgulhar e ter consciência que o pobre tem seu lugar.


Na letra de “Se não fosse o samba”, canção interpretada por Bezerra da Silva, o samba aparece como ferramenta não apenas de ascensão social, mas de sobrevivência. É através da música que o artista da periferia se diferencia dos outros moradores e cria sua identidade. Confira trechos que contam essa realidade:

“E se não fosse o samba

quem sabe hoje em dia eu seria do bicho?

(...)

Não deixou a elite me fazer marginal

E também em seguida me jogar no lixo

(...)

E toda vez que descia o meu morro do galo

Eu tomava uma dura

Os homens voavam na minha cintura

Pensando encontrar aquele três oitão

(...)

Batiam meu boletim

O nada consta dizia: ele é um bom cidadão

O cana-dura ficava muito injuriado

Porque era obrigado a me tirar da prisão

(...)

Mas hoje em dia eles passam,

Me vêem e me abraçam me chamam de amigo

Os que são compositores gravam comigo

E até me oferecem total proteção”


[Imagem: Reprodução/Youtube]

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