• Guilherme Castro Sousa e Otávio Daniel

O Buracanã continua de pé

Após quase um ano e meio desde o início da ocupação, moradores do Buracanã continuam a construir suas vidas no terreno.


Por Guilherme Castro Sousa e Otávio Daniel


A ocupação conta hoje com mais de 300 famílias e não há perspectiva de mudança. [Imagem: Guilherme Castro Sousa]

A ocupação Buracanã teve início em janeiro de 2021, em meio à pandemia de COVID-19, quando moradores da São Remo, pressionados pela precarização do trabalho e os valores elevados dos aluguéis, decidiram ocupar o terreno vazio que pertencia à Universidade de São Paulo (USP). Hoje, mais de 300 famílias vivem no terreno e muitas não têm nenhuma perspectiva de deixar a ocupação.


O local havia sido cedido à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), porém o projeto de construção de moradias populares proposto nunca foi executado; depois de muito tempo sem exercer nenhuma função específica, o terreno acabou passando a ser utilizado para o despejo de lixo e teve que ser limpo pelos próprios moradores para tornar possível a construção dos barracos.


Um ano e meio depois, a questão do lixo ainda é um problema na ocupação. Sem a coleta adequada de lixo e locais próprios para o seu descarte, os moradores ainda têm problemas com pragas como escorpiões, baratas e ratos, que oferecem risco à saúde e integridade física da população, além do desconforto geral de viver em condições insalubres.


Ao realizar a limpeza do local, as pessoas contempladas pela ocupação não conseguiram encontrar uma solução definitiva para a situação do acúmulo de lixo, e por isso apenas o moveram para um terreno adjacente ao Buracanã. Isso fez com que o projeto de construção de uma cooperativa de reciclagem que ocuparia o sítio tivesse de ser posto em hiato no atual momento. Até que seja decidido pela prefeitura o que fazer com esse lixo, a proposta não poderá ser posta em prática.


Humberto, comerciante local de 62 anos, está na ocupação desde o seu início e ajudou na limpeza do terreno. Já foi picado por escorpiões diversas vezes e se indigna com o descaso das autoridades. "A gente está aqui desprezado, somos gente, somos famílias, seres humanos, mas ninguém vê o nosso lado.” Existe a expectativa de uma cooperação com a USP para a limpeza de parte do terreno, porém até o momento dessa reportagem nada concreto foi feito.


Nildo, trabalhador autônomo de 54 anos, reclama sobre a questão dos aluguéis, os quais muitas pessoas não conseguem pagar com apenas um salário mínimo e por isso recorreram à ocupação para conseguir uma moradia. O morador da São Remo há 35 anos reclama, “um terreno desse aqui sempre esteve vazio”.


Apesar das ameaças de mobilização policial no início da ocupação, Humberto e Nildo não demonstraram preocupação com a possibilidade de desmanche da ocupação. “Falaram que iria estar certo" foi o que Nildo disse e Humberto foi mais incisivo: “A polícia não chega para derrubar nada aqui não”. Apesar de já ter havido um despejo violento no passado, para esses moradores a sua permanência no Buracanã é certa e a expectativa é de continuarem a construir suas moradias no terreno.


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