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O baile de Paraisópolis, três anos após a chacina

O cenário cultural e econômico em Paraisópolis sofreu impactos depois da repressão policial a um baile funk, três anos atrás e também com a pandemia do Corona Vírus. “Acabou praticamente o movimento aqui”, afirma moradora da segunda maior favela de São Paulo.


Por Camila Sales Machado


Imagem: Reprodução/Diário do Centro do Mundo


Em 1° de dezembro de 2022, completam-se tres anos da tragédia do Baile da Dz7, em que agentes do 16º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M) causaram a morte de nove pessoas durante a “Operação Pancadão”, em 2019. Paralelamente, no final de setembro deste ano foram comemorados os 12 anos do que segue sendo o maior baile de Paraisópolis e, como os próprios organizadores denominam, uma das maiores manifestações culturais do funk.


De acordo com os perfis de divulgação, a edição especial de aniversário do dia 30 reuniu mais de 80 mil pessoas e contou com apresentações de diversos nomes em ascensão no funk. Entretanto, esta não é a realidade observada, atualmente, em noites de finais de semana mais corriqueiros. Dona Ana, que mantém uma barraca de churros há mais de 12 anos no local, conta que, comparado ao cenário pré-pandemia, “acabou praticamente o movimento aqui. Antigamente era muita gente, era gente demais. Agora é pouco.”



Comemoração dos 12 anos do baile, 30 de setembro / Imagem: Reprodução/Fernanda Souza/Kondzilla


A queda de um fluxo que, durante quase uma década, costumava atrair por volta de 3 mil a 5 mil pessoas por noite, impacta severamente todo o “ecossistema” da comunidade. “Se eu depender do baile, eu morro de fome.”, continua Dona Ana, falando sobre os demais comerciantes locais que tinham as festas da Dz7 como principal fonte de renda. “Muita gente ficou desempregada, sem trabalho e sem dinheiro.”


Do contingente de pessoas que frequentavam o fluxo até 2019, grande parte vinha de fora de Paraisópolis, residentes de várias outras periferias de toda a região metropolitana de São Paulo, ou mesmo de outras cidades e estados. As 9 vítimas da operação, por exemplo, eram moradoras de outros bairros, que não conheciam a área e as rotas de fuga e, portanto, viram-se encurraladas pelos policiais.



Mural com os nomes dos 9 mortos na viela em que 7 dos assassinatos ocorreram / Imagem: Reprodução/Arthur Stabile/Ponte Jornalismo (2020)


O baile da Dz7 é uma atração cultural ao ar livre que reunia milhares de jovens de diversas áreas periféricas, projetava novas músicas e artistas de funk para o país todo, promovia o intercâmbio cultural, o lançamento de novas tendências e fomentava a economia da favela. E é, antes mesmo disso, uma das únicas formas de lazer financeiramente acessíveis aos moradores.


Andando pelas ruas da comunidade às noites de fim de semana, agora, é fácil observar outros tipos de empreendimento em ascensão, impulsionados pela ação do coletivo G10 Favelas. Os chamados “barzinhos”, como o Paraíso Chic e o Paraíso na Laje, ou mesmo as casas de shows e de festas, como o Arena & Bar, vêm surgindo e ganhando popularidade. Espaços fechados, com faixas de preço muito elevadas em comparação aos bailes, em que por vezes paga-se uma taxa ao entrar.



Bar Paraíso na Laje /Imagem: Reprodução/Pablo Jacob/Agência O Globo


Estas novas opções atendem a um público, de forma geral, ligeiramente mais velho, quase exclusivamente restrito aos moradores do bairro e, sobretudo, que dispõe de condições financeiras para gastar um pouco mais com lazer. Neste cenário, o futuro dos bailes permanece incerto. Boa parte da juventude que antes os frequentava agora tem medo, aqueles que vinham de outras regiões já não vêm com tanta frequência.


Na época do massacre, a Corregedoria da Polícia Militar alegou que os policiais não cometeram nenhuma irregularidade e agiram por legítima defesa, mesmo havendo vídeos registrados por moradores na noite do ocorrido que provam o contrário. Hoje, quase 3 anos depois, dos 31 agentes envolvidos no caso (que foram afastados da ação nas ruas), 12 são indiciados por homicídio triplamente qualificado, e o processo judicial ainda segue em andamento. Os promotores Luciana André Jordão Dias e Neudival Mascarenhas Filho afirmaram em entrevista ao portal Ponte Jornalismo que os PMs “agiram pela torpe motivação de causar tumulto, pânico e sofrimento, em abusiva demonstração de poder e prepotência contra a população que estavam em evento cultural”. As famílias das vítimas foram indenizadas pelo estado de São Paulo.


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