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Conjunto Jé: não basta só educação

Atualizado: 9 de nov.

Conjunto Habitacional Jefferson, em Mogi das Cruzes, tem uma educação muito boa, mas apenas ela não é suficiente para garantir a aprendizagem


Alessandra Ueno



[Imagem: Reprodução/ O Diário de Mogi]


“Não tem como você ensinar quem está com fome, quem está com dor de dente, quem está com uma unha inflamada, que não consegue pôr o sapato.” Essa é a fala de Kennedy de Paula, atualmente supervisor de ensino de Mogi das Cruzes, mas que já foi diretor da Escola Municipal Professora Etelvina Cáfaro Salustiano, localizada no Conjunto Habitacional Vereador Jefferson da Silva. Localizado no distrito de César de Souza em Mogi das Cruzes, o Conjunto Jé, como é popularmente conhecido, foi construído em 1998 por meio do Programa Habitacional de Interesse Social, uma parceria da cidade com o Governo de São Paulo. A região reuniu, principalmente, moradores das áreas de risco das favelas da Área Verde, do Cisne, do Gica e Pantanal. A junção de famílias de comunidades diferentes gerou diversos atritos, o que só foi agravado pelo isolamento físico do Conjunto. Um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBase) em 2019 apontou que o bairro ainda não tinha internet, posto de saúde e nem base da polícia. Além disso, a linha de ônibus que atende o local circula a cada 1h30, o que é extremamente demorado. O tempo de caminhada do Conjunto até o centro urbanizado do município é de 50 minutos. Nesse local, duas escolas marcam presença, sendo as únicas representantes do poder municipal: a Professor Takao Ikeda, de ensino infantil, e a Professora Etelvina Cáfaro Salustiano, de ensino fundamental. Com a falta de infraestrutura para saúde, lazer e segurança, muitos veem na escola, sobretudo a Etelvina, um local de refúgio. Ela foi uma das primeiras escolas a ser integral e sua taxa de evasão era baixíssima. Focando na parte educacional da Escola Etelvina, Kennedy explica o pensamento do professor José Marcelino Pinto, da Universidade de São Paulo, que crê que o efeito escola é apenas 30% no desempenho do aluno. Isso mostra um outro ângulo da classificação de uma "educação de qualidade", ditada pelos índices que medem esse âmbito como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). A desconsideração de que a escola tem somente uma parte da influência sobre a educação torna os índices pouco reais.


Dessa forma ocorre também a comparação entre as escolas particulares e públicas: "São realidades muito diferentes, cumprem um papel social diferente. Não é nem dizer que uma é boa e a outra é ruim, elas têm público-alvo diferentes. A sociedade faz comparações como se fosse tudo igual. A escola pública tirou essa nota e a escola particular essa nota, mas, espera aí, nós estamos comparando o quê? O ponto é a ideia de equidade, você só pode comparar se eles tiverem minimamente um ponto de largada semelhante. Quando o ponto de largada é muito diferente, você não está comparando nada com nada”, pontua Kennedy.


A imagem do Google Maps ilustra o isolamento do Conjunto. Postos de saúde não existem no local, tampouco áreas de lazer, comércios regularizados e base policial. [Imagem: Reprodução/ Google Maps]


Em locais como o Conjunto Jefferson, onde não há nem postos de saúde, como ensinar, manter o aluno focado quando falta o básico? Quando era diretor, Kennedy, dentro do projeto Escola de Tempo Integral, tentou trabalhar com todas as facetas que influenciam a educação: tinha um ônibus para levar os alunos semanalmente até o posto de saúde, fazia mostras culturais, tinha programa de natação. Ele fala: "30% é o teto, eu só consigo atingir se o aluno não tiver dor de dente. Tinha um menino lá que, quando ele abria a boca, ele falava assim: ‘Ah, eu tô com dor’. Eu olhei o dente dele, eu via sete, oito cáries. Eu não sabia nem onde que estava a dor porque podia estar em oito dentes. Eu falei: ‘Como que vai dar aula para esse aluno?’ ".


A escola, do ponto de vista educacional, pode até ser 30%, mas ela, ou seja, os diretores e toda a equipe, faz muito mais pelo lazer, pela saúde e para a vida, coisas que o Estado deveria fazer. Para todos os que se beneficiam dela, ela é 100%.


“Os outros 70% são a família, as condições socioculturais e econômicas, de uma maneira bem ampla e não a escola em si. Nesses lugares, para você conseguir ensinar, você tem que cuidar de outras coisas, é dar condições mínimas, coisas básicas”, comenta Kennedy.


Para saber mais sobre o Conjunto Jé, aqui estão o link do levantamento de 2019 do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas e uma reportagem feita por um grupo do curso de jornalismo da Universidade de Mogi das Cruzes.



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